Artigos e Trabalhos


UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
CURSO DE PSICOLOGIA
PSI8025 – PRÁTICAS BÁSICAS SUPERVISIONADAS







HOSPITAL PSIQUIÁTRICO





                                                                                          Trabalho realizado como método de avaliação da disciplina
 Práticas Básicas Supervisionadas
sob orientação da Professora
Maria Helena Martinho.

                                                                                       Por:
                                                                           Bruno Francisco da Silva
                                                                                   Rita de Cássia Mussuri
                                                                  Vanessa Carrilho dos Anjos





Rio de Janeiro
Junho 2006
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................................1
   
    1.1. Evolução da doença mental e a reforma psiquiátrica.......................................................1    
    1.2. A luta antimanicomial......................................................................................................2

2. A LEI  10.216 – Regulamentação das internações psiquiátricas............................................3

3. O PAPEL DO PSICÓLOGO CLÍNICO NA EQUIPE PSIQUIÁTRICA.......................4

    3.1. Funções do Psicólogo Clínico..........................................................................................4
    3.2. Diagnóstico e Tratamento................................................................................................5
    3.3. Ensino e Treinamento......................................................................................................5
    3.4. Investigação.....................................................................................................................6
    3.5. Prevenção.........................................................................................................................6

4. ENTREVISTAS ...................................................................................................................7

5. CONCLUSÃO.......................................................................................................................8

1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é apresentar a função do psicólogo na organização do trabalho técnico hospitalar e analisar alguns aspectos da instituição psiquiátrica, abordados durante duas entrevistas realizadas com profissionais da área .
A Psicanálise foi instrumental na introdução da Psicologia no currículo e na prática médica, originando o conceito de Medicina Psicossomática. A idéia de tratar e curar, presente no encontro dessas duas ciências, pode ser melhor compreendida ao se analisar a história evolutiva da doença mental.
1.1. Evolução da doença mental e a reforma psiquiátrica
 A loucura aparece por volta do Séc. XVIII,e nessa época se atribuía ao doente mental ação de deuses, demônios e força sobrenatural. Eles eram vistos como bruxos, inválidos, indivíduos perigosos, criminosos, e muitos deles eram colocados em naus e jogados ao mar ou largados a própria sorte.
As Instituições asilares surgiram com o objetivo de segregar os doentes mentais do convívio social e obrigá-los ao trabalho, sendo que, os mais violentos eram acorrentados e punidos. Essa tradição asilar e assistencialista das instituições para o portador de transtornos mentais historicamente caracterizou-se pela função de excluir os marginalizados construídos pelas disfunções produzidas no modo de produção capitalista e pela divisão social do trabalho.
A idéia da loucura só se apresenta como teoria médica na obra de Pinel. Com a reforma hospitalar implantada por esse psiquiatra francês, o manicômio se torna parte essencial do tratamento. Não será mais apenas o asilo onde se enclausura e se abriga o louco, será um “instrumento de cura”, onde o humano será o enfoque, pois para Pinel o doente mental era um ser humano com  valores próprios e potencialmente capaz.
Esquirol foi um discípulo de Pinel e o seguia a risca, tendo assim outros seguidores como Leuret, Falret, Georget e Moreau de Tours. A doutrina de Pinel e sucessores, inseparáveis do tratamento moral, passou a ser chamada de medicina moral ou medicina psicológica. De fato, foram  Pinel e seus discípulos que difundiram em toda Europa o enfoque psicológico.
Já na primeira metade do Séc. XIX, o modelo institucional de Pinel e Esquirol se deteriora não só pelos abusos no emprego de um tratamento moral desvirtuado: quanto menos o manicômio se demonstrava um recurso terapêutico, mais aparecia com instrumento de segregação social, como uma instituição de custódia do louco. Era apenas mais um dilema essencial da Psiquiatria, dividida entre  seus dois papéis: o de tratar o louco com base no rigor científico da medicina e o de intervenção social, entre o louco e a sociedade.
A institucionalização do tratamento manicomial destruiu o sonho iluminístico de Pinel, de “construir um ambiente ecológico no qual o doente mental é subtraído à violência das dinâmicas familiares, para encontrar suavidade e compreensão”.
1.2. A luta antimanicomial
Nos últimos dez anos, o problema da instituição psiquiátrica tem sido discutido por diversos setores da sociedade brasileira. Tendo se iniciado com um posicionamento dos trabalhadores de saúde mental - em 1987 nasce o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, se posicionando no sentido de negar o manicômio como forma de tratamento e de propor novas alternativas terapêuticas ao indivíduo portador de transtornos psíquicos.
Em função do discurso da cura da doença mental constrói-se uma instituição segregadora, pois estigmatiza; violenta, porque tutela, dopa e cronifica o ser humano e ineficaz quanto às ações terapêutica e curativa. Goffman (1987), em seu estudo sobre os asilos apontava as características das instituições totais e as terríveis conseqüências para o doente mental. Segundo o autor do livro “Manicômios, Prisões e Conventos”, uma instituição total pode ser definida como “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situações semelhantes, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada”.Esta tendência ao “fechamento” comum nos hospitais psiquiátricos, restringe o contato social dos indivíduos que nela vivem, os afastando do mundo exterior e das mudanças sociais. Por isso, se a estada do internado for muito longa, ocorre um processo de “desculturamento”, onde o indivíduo se torna incapaz de enfrentar alguns aspectos de sua vida diária. As barreiras que uma instituição total coloca entre o internado e o mundo externo, colaboram também para um desfiguração pessoal do indivíduo, compreendendo a perda de seus bens materiais e até mesmo de sua identidade, ao ser estigmatizado como louco.
A década de 70 e 80 possibilitou profundas mudanças sociais, e na área de saúde mental, inicia-se a denúncia de maus tratos e do péssimo atendimento nas instituições psiquiátricas. O movimento da luta antimanicomial avança em suas discussões e faz a crítica ao modelo hospitalocêntrico propondo o fim dos manicômios e abrindo espaço para o surgimento das primeiras experiências com modelos substitutivos em saúde mental, tais como: hospitais-dia, equipes mínimas de saúde mental nas unidades básicas de saúde, entre outros.


2. A LEI  10.216 – Regulamentação das internações psiquiátricas

A Lei 10.216, sancionada em 6 de abril de 2001, regula as internações psiquiátricas e promove mudanças no modelo assistencial aos pacientes portadores de sofrimento mental, destacando-se o processo de desospitalização, a ser implementado através da criação de serviços ambulatoriais, como os hospitais-dia ou hospitais-noite, os lares protegidos e os centros de atenção psico-social.
Seu objetivo é humanizar o tratamento, de modo que a internação seja o último recurso - e ainda assim, cercado dos devidos cuidados e do absoluto respeito à cidadania do paciente. Há a preocupação de se evitar as internações prolongadas e em reduzir as compulsórias. A proposta é privilegiar o convívio do paciente com a família. Neste novo modelo, a sociedade é chamada a assumir sua responsabilidade com os portadores de transtornos mentais, o que certamente implica a conscientização de que o regime aberto não oferece risco para ninguém, que o doente mental não é um incapaz e de que a inserção social é mais eficaz para a sua recuperação. A reforma psiquiátrica elegeu os agentes fundamentais neste processo: os médicos e a família, que passam a ser peças fundamentais.
Um dos grandes méritos da Lei é a explícita definição dos direitos das pessoas com transtornos mentais:
·                     proíbe a internação em instituições com características asilares (hospícios e manicômios, por exemplo)
·                     determina a necessidade de autorização médica para internação
·                     exige a notificação compulsória do Ministério Público, no prazo de 72 horas, em caso de internamento contra a vontade expressa do paciente
·                     diagnóstico e terapia passam a depender de autorização do paciente ou de seu responsável legal

3. O PAPEL DO PSICÓLOGO CLÍNICO NA EQUIPE PSIQUIÁTRICA

Com o avanço no desenvolvimento dos hospitais em geral, durante o período entre guerras,o desempenho das funções de administrar, tratar pacientes, ensinar médicos e técnicos, investigar e desenvolver técnicas profiláticas passou a ser um sistema de trabalho complexo e exigir a cooperação de técnicos de vários setores de conhecimento humano. No hospital psiquiátrico surgiu uma equipe de trabalho hierarquicamente organizada e contando com a participação de médico, enfermeira, atendente, terapeuta ocupacional, psicólogo clínico e assistente social psiquiátrica.

3.1.Funções do Psicólogo Clínico
Como membro da equipe psiquiátrica compete ao psicólogo contribuir para os objetivos do grupo, que podem ser divididos em cinco áreas específicas: 
1. diagnóstico
2. tratamento
3. ensino e treinamento
4. investigação
5. prevenção
Em especial o psicólogo contribui com conhecimentos e técnicas especializadas capazes de enriquecer e complementar a ação do grupo.
Estes podem ser de natureza social, psíquica, biológica, tóxica, infecciosa, etc. Portanto ao falar de doença mental se compreenderão as chamadas neuroses, psicoses, reações associais e anti-sociais - delinqüência, crime, perversões, perturbações de conduta e as moléstias ditas psicossomáticas.

3.2.Diagnóstico e Tratamento
O diagnóstico e o tratamento devem constituir uma única etapa.
O paciente ao ser estudado é objeto de quatro diagnósticos:
1. diagnóstico de personalidade
2. diagnóstico nosológico
3. diagnóstico genético-dinâmico topográfico
4. avaliação sócio-econômica

O que se pede ao psicólogo não é que confirme apenas os resultados apresentados pelos demais membros da equipe mas que através de suas técnicas especiais resolva problemas específicos que os demais não podem elucidar. Os resultados de uma bateria de testes dependem da capacidade do psicólogo em compreender e interpretar os seus dados.
O tratamento pela equipe psiquiátrica pode ser resumido nos seguintes itens:
1. técnicas sociais                                                                                          
2. técnicas psicológicas
3. técnicas biológicas
4. técnicas farmacológicas
5. técnicas físicas
Dentro da equipe psiquiátrica os itens de 3-5 pertencem, pelas suas implicações, exclusivamente ao médico. O psicólogo tem sido encarregado de executar terapêuticas dos tipos sociais e psicológicas.
Dentre as técnicas sociais destacam-se os grupos operativos ou grupos de trabalho. Através deles se utilizam as possibilidades de ressocialização, de estimulação à autodeterminação, de governo das unidades pelos próprios pacientes, etc.
Em casos selecionados recomenda-se aos psicólogos o tratamento de pacientes por métodos psicológicos, sob supervisão. A probabilidade de que sintomas mentais sejam produzidos por lesões, traumatismo, infecções, tóxicos, etc. deve ter- se sempre presente e por esse motivo as organizações que utilizam psicólogos clínicos insistem na supervisão médica.

3.3.Ensino e Treinamento
Pelos seus conhecimentos especializados o psicólogo tem sido utilizado no ensino e no treinamento de psicólogos, alunos de Psicologia, atendentes psiquiátricos, residentes do curso pós-graduação em clínica psiquiátrica e outros. O ensino abrange matérias básicas bem como as técnicas especiais como testes e sua avaliação. Nos casos dos residentes de Clínica Psiquiátrica o psicólogo tem se encarregado de discutir com eles a utilização que podem fazer do mesmo, ensinando-lhes princípios gerais sobre testes, a composição da bateria, a interpretação e o modo de solicitar exames.
 3.4.Investigação
De um modo geral espera-se que o psicólogo possa contribuir ativamente no planejamento de programas de investigação, organização e coleta de dados, de modo a tornar a sua validez compatível com o tipo de conclusões que se pretendem do experimento. Por outro lado os conhecimentos espaciais em matéria como bioestatística fazem do psicólogo clínico um auxiliar valioso para a equipe na análise do material obtido bem como na compreensão de revisões bibliográficas baseadas em conclusões desse tipo.
 3.5.Prevenção
Das funções do hospital a última a ser desenvolvida é a relacionada com a prevenção e a profilaxia. Presentemente desenvolvemos programas nesta área que estão mais dirigidos à educação do público no tocante à doença mental.
Aqui o psicólogo pode desempenhar funções de liderança e informação, especialmente nos programas de prevenção a serem desenvolvidos ao nível das escolas.
O estabelecimento de padrões mínimos de qualificação para a prática clínica é medida indispensável para a compreensão e cooperação entre os próprios psicólogos. Somente assim se poderá definir a figura do psicólogo e delimitar as suas capacidades e possibilidades profissionais. Este passo é igualmente decisivo para o estabelecimento de relações profissionais com os demais membros que compõem a equipe psiquiátrica.
 4. ENTREVISTAS
As entrevistas realizadas com duas profissionais da área estudada- Professora Sônia Moura (Psicóloga com 24 anos de experiência no hospital de custódia e tratamento psiquiátrico Heitor Carrilho) e Cristina Faceira (Psicóloga do Instituto Dr. Francisco Spínola) permitem um conhecimento atual desse tipo de instituição e corroboram a função do psicólogo no processo de humanização dos tratamentos psiquiátricos:
A maioria dos pacientes é de baixa renda e baixo aprendizado,e o quadro clínico pode variar de dependência química a psicoses de diferentes graus.
Atualmente além dos diversos tipos de tratamento, são oferecidas atividades ocupacionais, onde o terapeuta aproveita para entrar no mundo imaginário do doente mental através de desenhos, brincadeiras, costura, cozinha, pintura, confecção de bijuterias etc
A função do psicólogo é de dar apoio não só aos pacientes como aos profissionais do hospital,pois quando se trabalha com psiquiatria o ambiente é mais pesado. O profissional  lida o tempo todo com a doença, e ainda pode acabar transferindo problemas pessoais para os pacientes. Além disso o psicólogo está apto para fazer uma ligação melhor com o médico e com a equipe .
A relação com o psiquiatra é uma questão de hierarquia: Quando o paciente entra em surto, o médico precisa começar com a medicação e o psicólogo só entra com o seu trabalho quando passa o efeito do medicamento. É muito importante a questão da ética: Há médicos que se acham donos do saber e não respeitam até onde podem atuar, por isso é muito importante o tratamento da equipe.
Em relação à lei 10.216 de Paulo Delgado, tem hora que favorece os pacientes e tem hora que desfavorece, pois ela faz a desinstitucionalização do mesmo, que acaba recebendo alta sem condições. A verba do SUS é muito baixa, e não há uma continuidade do tratamento pós-alta, levando muitos pacientes às ruas. Existem programas, como os CAPS que são ótimos, mas não funcionam. Como o doente mental precisa de um acompanhamento de 24 horas, e a maioria desses pacientes é de uma população de classe econômica muito baixa, eles acabam ficando sem medicação e entram em surto novamente.
O problema é a questão da saúde em geral. No nosso país, se houvesse maiores investimentos neste setor, poderíamos trabalhar melhor, dando autonomia para muitos pacientes saírem dos hospitais.
 5. CONCLUSÃO
Através do presente estudo e das entrevistas realizadas com psicólogas clínicas, foi possível compreender que o papel do psicólogo consiste em dar assistência não só aos pacientes como aos técnicos de saúde que trabalham em uma instituição psiquiátrica.  Além de prestar apoio ao doente mental, o psicólogo deve visar o treinamento e tratamento dos profissionais que trabalham com ele, para que haja uma relação harmônica da equipe e conseqüentemente um tratamento mais humanitário do paciente.
A terapia ocupacional é importante, pois dá uma dimensão lúdica para esses indivíduos, já que muitos não têm mais condições de verbalização. De certa forma o psicólogo pode entrar no mundo imaginário deles, através de desenhos, brincadeiras e assim constituir uma forma humana de interação.
A problemática atual consiste na falta de recursos para a continuidade do tratamento pós-alta e na luta contra a institucionalização do doente mental: Apesar do grande desenvolvimento das instituições psiquiátricas depois da reforma hospitalar de Pinel, ainda observamos a presença da segregação e da exclusão nos hospitais,cronificando o portador de transtornos mentais.
O doente mental deve ser tratado como um ser humano capaz e não como um indivíduo que não se adaptou ao modo de vida imposto pela nossa sociedade capitalista e segregadora, onde o diferente é visto como anormal.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PESSOTI, Isaias. O Século dos Manicômios. São Paulo: Editora 34,1994.

GOFFMAN,Erving.Manicômios, Prisões e Conventos.7ªed. São Paulo: Editora Perspectiva., 2005.

FOCAULT, Michel. História da Loucura. 8ªed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2005.

FOCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 31ªed. Petrópolis: Editora Vozes, 2006.


TRABALHO DA DISCIPLINA TEORIA EXISTENCIAL HUMANISTA
 INTRODUÇÃO
          O Texto nos fala sobre o surgimento da Psicologia Existencial influenciando outras teorias, onde o autor aborda a ansiedade na visão de Freud e Kierkegaard o pai do existencialismo. Fala sobre Willian James e sua constante luta com a razão e vontade, e sua depressão.
            Em relação à afirmação de Sartre “a existência precede a essência, James sabia que existência também exige essência.
            O existencialismo lida com categorias psicológicas: “experiência”, “ansiedade”, “vontade”. A Fenomenologia foi o primeiro estágio no desenvolvimento da psicologia existencial.
            A psicoterapia dá o enfoque existencial procurando desvendar os mais profundos conflitos, angustias e anseios, procurando aliviar seu sofrimento.
            Existencialismo envolve a centralização na pessoa existente, enfatizando como emergentes em evolução, “o mundo em construção”.
            O texto mostra também como deve ser a postura do terapeuta em relação  ao seu paciente, e que a psicoterapia existencial tem como característica a técnica de mudar, e que essas mudanças dependerão das necessidades de cada paciente.
            May enfoca no texto o problema do ego, pois o mesmo tornou-se o centro de discussões psicanalíticas e psicológicas. A vontade e decisão, as funções construtivas de ansiedade e culpa, o conceito e experiência de ser-no-mundo, são outros tópicos que a psicologia existencial acha importante estudar.
            No final do texto May fala sobre as críticas à Psicologia Existencial, sendo muitas delas baseadas em mal-entendidos, que chegam a dizer que a Psicologia Existencial é mística, pois nada oferece ao cientista.
No primeiro momento do texto o autor se vê num leito de um sanatório, pois havia contraído tuberculose, e assim começa a avaliar as formulações de Freud e Kierkegaard no que diz respeito à ansiedade.
            Freud tem duas hipóteses para a ansiedade. Na primeira ele diz que a ansiedade é o surgimento da libido reprimida, e na segunda Freud diz que a ansiedade é a reação do ego à ameaça da perda do objeto amado.
            Já Kierkegaard falava sobre a ansiedade de uma forma diferente, ele a descrevia como a luta do ser vivo contra o não-ser e diz: “A ansiedade é um desejo daquilo que se teme, uma antipatia simpática”, ou seja são temores, mas ao mesmo tempo que se teme se deseja. A ansiedade torna o indivíduo impotente.
            Para Rollo may o que Kierkegaard falava sobre a ansiedade tinha uma conotação mais real do que as hipóteses de Freud, pois tinha tudo haver com que ele estava vivendo naquele momento, naquele hospital, pois Kierkegaard retratava o que é  diretamente experimentado pelos seres humanos em crise – crise da vida contra a morte, e tinha tudo haver com o que May experimentava naquele momento. O que Kierkegaard  escrevia tinha nível existencial, ontológico, pois o mesmo conhecia a ansiedade. Enquanto Freud já falava em um nível diferente, ou seja, dava formulações dos mecanismos psíquicos pelos quais se evidenciam a ansiedade.
            May nos diz que os dois não representa uma dicotomia de valores, pois os dois pontos de vista são necessários.
            O autor nos fala que o maior problema do ser humano é a repressão do sentimento de ser, e como conseqüência disso a imagem que o homem moderno tem de si mesmo, da própria experiência é o auto conhecimento como indivíduo responsável, tem igualmente se desintegrado.
            William Whyte adverte que os inimigos do homem moderno podem revelar-se como sendo “um grupo de terapeutas de aparência inofensiva que (...) estariam fazendo o que pudessem para ajudá-lo”. Com isso ele se referia  à tendência de usar as ciências sociais  como suporte da ética social do período histórico de cada um, ou seja, ele dizia que o processo de ajuda às pessoas, pode torná-las amoldadas e com tendência para a destruição da individualidade, ou seja, há possibilidade real de ajuda ao indivíduo a ajustar-se e ser feliz, ao preço da perda do seu ser.
            A questão existencialista alcança as raízes da vida e o desafia exatamente nesse          ponto.
            William James era depressivo, tinha dificuldade de decidir,  e esteve freqüentemente à beira do suicídio. Ele queria que alguém lhe desse “uma razão para desejar viver quatro horas mais”. Através da depressão vivida por ele, James se tornou muito preocupado com o problema da vontade.
            James escreveu em seu diário: “Meu primeiro ato de vontade livre é acreditar em vontade livre”.
            James tinha a crença de que o que interessa não é que alguém lhe dê uma razão, mas que lhe crie o significado de sua vida por um ato de vontade. Mais tarde James se convencera de que a solução existencial para o problema da vontade tornou-o capaz de lidar com sua depressão.
            James e Kierkegaard (o pai do existencialismo moderno), enfatizaram o imediatismo apaixonado da experiência. Os dois acreditavam na importância da verdade. Decisão e compromisso são por si mesmos, condições prévias para a descoberta da verdade, ou seja, o sujeito jamais pode conhecer ou descobrir a verdade sentando-se desligadamente numa poltrona.
            Em relação a Epistemologia James não acreditava que a mesma fosse uma função cognitiva. A sua Epistemologia é similar à de Nietzche, onde Nietzche sustenta que a verdade é a maneira pela qual um grupo biológico se realiza. Existiu também discussões entre James e Charles S. Peirce a respeito da luta entre “existência e essência”, muitas vezes Peirce censurou James pelo seu existencialismo.
            James é reconhecido por historiadores da ciência como sendo iniciador do empirismo americano em Psicologia. James sabia que a existência também exige essência. E a essência exige que se torne real pelos esforços existenciais aqueles de nós que existem. Vivemos numa constante interação entre as duas.
            James não era anticientífico, mas acreditava que a ciência era feita para o homem, e não o homem para a ciência.
            James se denominava filósofo, mas ele era também psicólogo. Ele lida com categorias psicológicas – “experiência”, “ansiedade” e “vontade”, mas preocupava-se em conhecer estes aspectos da vida do homem no nível mais profundo da realidade antológica.
            É um erro pensar em Psicologia Existencial como uma ressurreição da velha “Psicologia Filosófica” do séc. XIX. O ponto de vista existencial é um esforço para entender o comportamento humano e sua experiência em termos de suposições que o sustentam – suposições que sustentam nossa ciência e nossa imagem do homem. É o esforço de compreender o homem como experimentador, como aquele que acontecem as experiências.
            A Psicologia, foi conduzindo ao centro do desenvolvimento da Fenomenologia. A  (Fenomenologia, o primeiro estágio no desenvolvimento da Psicologia Existencial).
            A forma de trabalho de James baseia-se no insight da unidade do homem e a do mundo não são dependentes “de um método racional”, mas da unidade do mundo pré-racional, um mundo de experiência, a fonte original e integral das questões divergentes, que favorecem diferentes ciências e diferentes Psicologias. Esta origem de experiência tem dois aspectos: o que é fonte de experiência e o que é experimentado por si só. Portanto uma pessoa pode descrever e analisar a experiência e o corpo como maneiras originais de existir dentro do mundo ou descrever e analisar a experiência e o corpo como maneiras na conexão espaço-tempo da “realidade” experimentada. A primeira é a Psicologia descritiva e a segunda é a Psicologia interpretada.
            A psicoterapia está preocupada com o existencialismo na história intelectual do ocidente, teve início com Pascal, no séc. XVII, tendo tido uma história secreta no séc. XVIII, uma história revolucionária no séc. XIX, e uma vitória no séc. XX. O existencialismo tornou-se o estilo de nossa época em todos os domínios da vida.
            O existencialismo nesse seu desenvolvimento raras vezes foi alcançado. Podemos citar um exemplo que é a doutrina do homem de Sartre. Ela afirma que: “A existência precede a essência”, ou seja, o homem é um ser cuja a essência não se pode garantir, pois tal essência introduzirá um elemento permanente e contraditório no poder que o homem tem de se transformar indefinidamente. A natureza particular do homem é o seu poder de criar a si mesmo.
            Todos nós temos o mesmo ciclo biológico, nascemos, crescemos, reproduzimos, envelhecemos e morremos, isto não mudará. Mas a nossa vida muda de acordo como a dirigimos.
            O existencialismo não nega a importância das teorias, mas sustenta que para explicar ou entender o ser humano não podemos nos basear somente em teorias, porque podemos perder o nosso objeto de estudo, uma vez que se pode tornar cada vez mais abstrato.
            O existencialismo não é um sistema de terapia, mas uma atitude para com a mesma. Não é um conjunto de técnicas por si  mesmas, mas um interesse pela compreensão da estrutura do ser humano e sua experiência.
            Todo terapeuta é um existencialista na medida em que é um bom terapeuta.
            O existencialismo é a base para qualquer linha.
            “O terapeuta deve ter uma aptidão para experimentar criticamente” (Albert Welleck).
            O terapeuta tem que se livrar de preconceitos, se desnudar de qualquer julgamento. Se pôr no lugar da pessoa para que tenha um olhar mais próximo do problema. A empatia entre o paciente e o terapeuta é essencial para a psicoterapia existencial.
            Se o terapeuta ao sentar-se com o paciente e pensar nos porquês e comos, do modo pelo qual o problema surgiu, ele terá compreendido tudo menos a única fonte real de dados que ele tem, que é a pessoa existente. Esta pessoa agora emergente, em transformação, “mundo em construção”.
            É neste ponto que a Fenomenologia, o primeiro estágio no movimento psicoterapêutico existencial, tem sido muito importante.
            A  Fenomenologia é o esforço para considerar o fenômeno como ele é dado. É a disciplina para clarear a mente das suposições que levam o terapeuta ver no paciente tão – somente suas próprias teorias, ou dogmas de seus próprios sistemas. É o esforço para experimentar os fenômenos em sua inteira realidade, ou seja, como eles se apresentam. Isto requer uma atitude de absoluta boa vontade para ouvir – aspectos da arte de ouvir (escutar) em psicoterapia.
            O terapeuta deve apresentar presença perante as comunicações em diferentes níveis que o paciente apresenta. Ele deve ser sensível, a não só as palavras, mas com gestos, expressões faciais e a distância que o paciente se põe dele. O terapeuta deve estar atento as mensagens que o paciente transmite indiretamente. Ele deve estar preparado para ouvir e sentir como paciente. Deve ocorrer uma comunicação empática e telepática. O terapeuta tem que compreender e não vice-versa.
            Uma característica da psicoterapia existencial é a que técnica muda. Estas mudanças não são improvisadas, mas dependerão das necessidades do paciente em certos momentos.
            O conhecimento de técnicas e o rigoroso estudo de dinâmica devem ser pressupostos no treinamento da psicoterapia.
            O autor ressalta que cada teoria tem suas pressuposições sobre a natureza do homem, a natureza de suas experiências, e assim por diante.
            Neste ponto a insistência existencial é a de que o psicólogo deve continuamente analisar e esclarecer suas próprias pressuposições e ressalta ainda que essas pressuposições sempre limitam e estreitam o que os psicólogos percebem num problema, num experimento, ou numa situação terapêutica, e acrescenta ainda afirmando que não há como fugir deste aspecto de nossa “finidade” humana.
            A única maneira que os psicólogos podem evitar as pressuposições que suportam nosso método particular desviem indevidamente nossos esforços é conhecer conscientemente quais são eles e assim não absolutizá-los ou dogmatizá-los.
            Na parte seis do texto, May fala um pouco sobre Freud e afirma que Freud desvendara domínios da experiência humana de tremenda importância. Foi igualmente essencial à imagem do homem, especificamente, do homem impulsionado por forças demoníacas, trágicas e destrutivas. Sobre o “instinto de morte” de Freud, May não concorda que seja, como um instinto biológico, como o mesmo afirma.
            May diz que precisamos abrir nova visão da ciência, não só os psicólogos existenciais, mas todos, de todas as áreas. A posição psicológica existencial não é para ele, absolutamente anticientífica.
            O enfoque existencial abre frente sobre o problema do ego. Quando fala “problema”, May quer dizer “problema” de propósito.
            Freud descreveu o ego como fraco e passivo, emperrado pelo id de um lado e pelo superego de outro. E mais tarde o ego com o centro organizador da personalidade, mas o considerou ainda fraco, e May concorda com isso, pois devido a posição estrutural do ego no sistema ego-id-superego, o ego tem de permanecer sem autonomia, mesmo em seus próprios domínios.
            Para May os conceitos de Freud são uma mitologia, e essa mitologia é fundamental para a grandeza de sua contribuição e essencial para suas descobertas mais importantes, entre elas “o inconsciente”.
            Muitos conceitos sobre o ego surgiram, e May ia de contra à essa multidão de egos, pois para ele “egos múltiplos” é uma precisa descrição de uma personalidade neurótica.
            A capacidade de ser dividido em muitos egos distintos, é tentador para a Psicologia Experimental, pois ele faz um convite ao método de “dividir para reinar”, que foi herdado em nosso tradicional científico dicotomizado.
            Outros tópicos para estudo que a Psicologia Existencial apresenta, são a vontade e decisão; funções construtivas de ansiedade e culpa; o conceito e experiência de ser-no-mundo. E a questão da responsabilidade também.
            Uma das mais novas formas de psicoterapia existencial, foi a “cura” de um viciado em narcóticos, e isso foi realizado na base dos princípios existenciais, onde Dr. Ramirez “combinou existencialismo com a psiquiatria”. Ele diz ao viciado o seguinte: “eu sou um médico, não sou responsável pelo seu vício, posso oferecer-lhe as alternativas para tirá-lo do buraco. O resto é com você mesmo”.
            Ronald Laing tem recebido uma atenção especial também, cujo pensamento baseia-se em princípios existenciais. Lang diz: “a única maneira pela qual podemos compreender e tratar com seres humanos é clarificar a natureza do ser humano” – que é antológica. “Qualquer teoria que não seja fundamentada na natureza é uma mentira e uma traição ao homem”.
            Uma nova forma de psicoterapia existencial, é a logoterapia de Victor Frankl. Ele passou diversos anos no campo de concentração, e aprendeu que essa experiência força o indivíduo a ser existencialista. Quando a vida é reduzida ao simples fato de existir, quando nada mais tem significado, existe também liberdade de escolher que atitude tomar para com o próprio destino. Isto pode não modificar o destino, mas modifica sem dúvidas a pessoa.
            Frankl desenvolveu a logoterapia que enfatiza a busca do homem por significado. Vontade e decisão são um importante ingrediente do que ele chama de logoterapia.
            Os perigos moram em que a logoterapia paira muito próximo ao autoritarismo. Parece haver soluções claras para todos os problemas, o que é uma contradição a complexidade da vida atual.
            Na última parte do texto, May fala sobre as críticas à Psicologia Existencial., mas que muitas dessas críticas se baseiam em mal-entendidos.
            Robert Holt ataca o método ideográfico de Allport, e sustenta que o “engodo” da Psicologia Existencial é o “contato direto com o mundo não mediado por conceitos” e declara que a psicologia Existencial é mística e que essa Psicologia nada oferecem os cientistas.
            Já Sigmund Kock fala da Psicologia Existencial como um “tipo de fuga comedimentes tradicionais para a resposta, em vez de para um problema. (...)”. “Eles (os psicólogos existenciais) não parecem pensar como cientistas...”.
            May expressa também sua própria opinião da Psicologia Existencial e fala de algumas dificuldades, críticas e problemas com que se defronta a Psicologia Existencial. Uma crítica que tem validade para May é que o fato de que os conceitos em Psicologia Existencial prestam-se para ser usado no serviço do desligamento intelectualista. Tipo “ontológico”, “ôntico” e “existencial” podem ser usadas para cobrir diversas maneiras de se relacionar (ou não de se relacionar) que pareceriam ser existenciais.
            O enfoque existencial em Psicologia, como em qualquer área, não deve ser  racionalista ou anti-racionalista, mas procurar os fundamentos em que ambas, razão e não-razão, se baseiam.
            Kierkegaard e todos os pensadores da tradição existencial, insistem em que não podem ser evitados os problemas de ansiedade, culpa, tédio e conflito do homem ocidental. É central na tradição existencial a ênfase “igualmente/ou, a insistência de que somente com um alto conhecimento destes problemas e decisões podem eles ser abordados. May tem a opinião de que, o enfoque existencial é a conquista de individualidade (inclusive individualidade subjetiva).
            May duvida para  com as tendências de fazer Psicologia Existencial um novo movimento, mas uma forte afirmação das penetrantes questões levantadas nesse novo enfoque, e sustenta também a insistência da atitude existencial para que estas questões sejam respondidas num nível humano.
 CONCLUSÃO
 O texto nos fez compreender mais claramente o que vem a ser existencialismo, com suas idéias, práticas, os fenômenos, o desenrolar da vida do ser humano.
            Nos fez conhecer e refletir sobre opiniões de outros filósofos, psicólogos, para  compreendermos um pouco mais além do que seja este “mundo em construção”, e o ser humano em evolução.
            Nos fez entender que para “tentar” compreender o outro é necessário nos desnudarmos dos nossos pré-conceitos e de tudo que trazemos de nossa cultura, sem julgamentos e críticas, aberto para ouvir o outro, tentando amenizar seus conflitos, angústias, dores e sofrimentos, através de uma psicoterapia aberta para mudanças.
 CONCEITOS
Ansiedade – angústia, grande inquietude, excitação;
Culpa – falta, ato ou omissão repreensível;
Ego – personalidade do indivíduo definida como equilíbrio;
Essência – sentido é o “ser da coisa” a qualidade;
Existência – existir;
Existencialismo – Filosofia centrada na existência e no homem;
Experiência – conhecimento adquirido pela prática de observação ou exercício;
Fenômeno – o que se manifesta por si mesmo em determinado meio ou condição;
Fenomenologia – única ciência que estuda a consciência pura;
Psicoterapia – método utilizado para tratamentos psicológicos;
Razão  - sabedoria;
Subjetividade – estado, caráter daquilo que é subjetivo;
Subjetivo – que passa no íntimo do sujeito pensante;
Vontade – desejo, intenção.
 Por
Rita de Cássia Moreira Menezes Mussuri

 Sistema Límbico

O termo límbico provêm do latim limbus, que traduz a idéia de círculo, anel, em torno de e etc. 
Em 1878, o neurologista francês Paul Broca observou que, na superfície medial do cérebro dos mamíferos existe uma região constituída por núcleos de células cinzentas (neurônios), a qual ele deu o nome de lobo límbico uma vez que ela forma uma espécie de borda ao redor do tronco encefálico.
É esse Sistema Límbico, o qual comanda certos comportamentos necessários à sobrevivência de todos os mamíferos, cria e modula funções mais específicas, as quais permitem ao animal distinguir entre o que lhe agrada ou desagrada e também se desenvolvem funções afetivas.
Emoções e sentimentos, como ira, pavor, paixão, amor, ódio, alegria e tristeza, são criações mamíferas, originadas no Sistema Límbico. Este Sistema Límbico é também responsável por alguns aspectos da identidade pessoal e por importantes funções ligadas à memória. A parte do Sistema Límbico relacionada às emoções e seus estereótipos comportamentais denomina-se circuito de Papez. Em 1937, o neoroanatomista James Papez publicou um trabalho propondo uma nova teoria para explicar o mecanismo da emoção. Envolveria as estruturas do lobo límbico, do hipotálamo, e do tálamo, todas unidas por um circuito, o circuito de Papez . O ponto fundamental de sua teoria, que já foi amplamente confirmado é a  importância das estruturas do lobo límbico e suas conexões nas manifestações emocionais.
Os mecanismos que controlam os níveis de atividade nas diferentes partes do encéfalo e as bases dos impulsos da motivação, principalmente a motivação para o processo de aprendizagem, bem como as sensações de prazer ou punição, são realizadas em grande parte pelas regiões basais do cérebro, as quais, em conjunto, são derivadas do Sistema Límbico.

Componentes do Sistema Límbico:
A maioria dos  autores dividem a Sistema em duas categorias: componentes corticais e subcorticais.

Componentes Corticais:

-          Giro do Cíngulo

Contorna o corpo caloso, ligando-se ao giro para-hipocampal pelo ismo do giro do cíngulo. Constituído de um tipo de córtex intermediário entre o isocórtex e o alocórtex. É percorrido por um feixe de fibras, o fascículo do cíngulo.

     -      Giro para-hipocampal

Se localiza na face inferior do lobo temporal. É constituído do paleocórtex.

-          Hipocampo

É constituído de um córtex muito antigo, o arquicórtex. Projeta-se para o corpo mamilar e área septal por um feixe compacto de fibras, o fórnix, que está situado abaixo do corpo caloso.

Componentes Subcorticais:


-          Corpo amigadalóide ou Núcleo amigdalóide

 Situa-se no lobo temporal, entre o úncus e o giro para-hipocampal.  É um dos núcleos da base.

Possui inúmeros subnúcleos, com conexões amplas e complexas, onde suas fibras eferentes agrupa-se em um feixe compacto, a estria terminal, que acompanha a curvatura do núcleo caudado e termina no hipotálamo.

     -      Área Septal

Desenvolveu-se no telencéfalo e consiste de lâmina de substância cinzenta, atravessada de muitas fibras, dispostas no plano vertical da parede medial do corpo anterior do ventrículo lateral, principalmente na frente da comissura anterior, devido a isto a área septal pode ser dividida em partes pré e supracomissurais.

Esta área projeta-se para o hipocampo e para a formação reticular através do feixe prosencéfalo medial.

-          Núcleos mamilares

Situados nos corpos mamilares recebem fibras do hipotálamo por meio do fórnix e através do fascículo mamilo-tegmentar e mamilo-talâmico.  Projetam-se para a formação reticular e para os núcleos anteriores do tálamo.

-          Núcleos anteriores do tálamo

Recebem fibras do núcleo mamilares e projetam-se para o giro do cíngulo.

-          Núcleos Habenulares

Recebem fibras aferentes pela estria medular e projetam-se para o núcleo interpeduncular do mesencéfalo.

Conexões do Sistema límbico:

Funcionalmente o Sistema Límbico está relacionado às  regulações dos processos emocionais, à regulação do Sistema Nervoso Autônomo e também de processos motivacionais essencias à sobrevivência da espécie e do indivíduo, isto tudo através de conexões, interações, as quais, importantes e vitais, para o funcionamento de cada estrutura do cérebro e consequentemente do funcionamento humano.
A intercomunicação do sistema límbico foi, e ainda é objeto de estudo de muitos pesquisadores. As conexões estão classificadas em:

·         Conexões Intrísecas;

·         Conexões Extrínseca;

-   conexões aferentes

-          conexões eferentes

Conexões Intrísecas


Em 1937, o neuroanatomista James Papez, publicou um trabalho com uma nova teoria para explicar o mecanismo da emoção. Mecanismos estes entre as estruturas do lobo límbico, do hipotálamo e do tálamo, todas unidas por um circuito fechado, conhecido por circuito de Papez.  Enumeradas na seqüência que representa a direção predominante dos impulsos nervosos: Hipocampo, Fórnix, Corpo Mamilar do Hipotálamo, Fascículo Mamilar- talâmico , Núcleos Anteriores do Tálamo, Cápsula Interna, Giro do Cíngulo, Giro- Hipocampal e novamente o Hipocampo.
O hipocampo se projeta também para a área septal, sendo recíproca estas conexões.  O núcleo amigdalóide mantém extensas ligações com o hipotálamo, com a área septal, com partes do tálamo e da formação reticular. São as diferentes estruturas do sistema límbico mantendo entre si  numerosas intercomunicações, constituindo o subtrato neural da emoção e da memória.

  Conexões Extrínsecas


As estruturas do sistema límbico tem amplas e diversificadas conexões com diferentes setores do sistema nervoso central, tendo acesso a informações sensorias e a mecanismos efetuadores, através de suas conexões aferentes e eferentes.

Conexões Aferentes


Através do sistema nervoso central é desencadeado determinadas informações sensorias, gerando emoções.  Estas informações são como impulsos, que fazem inúmeras e complexas conexões com diversos componentes do sistema límbico, ativando e processando a entrada de informação exemplo, informações visuais, auditivas, somestésicas ou olfatória, que sinalizam perigo, podem despertar medo.  Sabe-se que as modalidades de informações sensoriais  acessadas pelo sistema límbico é de forma indireta, primeiro elas são processadas nas áreas corticais de associação secundária e terciária e penetram no sistema límbico por vias que chegam ao giro para-hipocampal de onde passam ao hipocampo, entrando no circuito de Papez.
Com exceção dos impulsos olfatórios que vão direto para a área cortical de projeção para o giro-hipocampal e o corpo amigdalóide, as informações relacionadas com a sensibilidade visceral tem acesso ao sistema límbico diretamente ou indiretamente com o corpo amigdalóide e o hipotálamo. Outras aferencias são as numerosas projeções serotoninérgicas e dopaminérgicas que o sistema límbico recebe da formação reticular, exercendo ação moduladora sobre a atividade de seus neurônios.
Conexões eferentes
O sistema límbico com suas conexões eferentes, participa dos mecanismos efetuadores que desencadeiam, o componente periférico e expressivo dos processos emocionais, controlando ao mesmo tempo, a atividade do sistema nervoso autônomo. O hipotálamo e a formação reticular exerce com o sitema límbico principais conexões.
   Conexões eferentes com o hipotálamo;
-          Hipocampo: liga-se aos núcleos mamilares pelo fórnix, seguindo os impulsos para o núcleo anterior do tálamo, através do fascículo mamilo-talâmico, e para a formação reticular do mesencéfalo, pelo fascículo mamilo-tegmentar;
-          Corpo amigdalóide: as fibras seguem do núcleo amigdalóide ao hipotálamo através da estria terminal;
-          Área septal: ligando-se ao hipotálamo por meio de fibras que percorrem o feixe prosencéfalo medial;

·         Conexões eferentes com a formação reticular do mesencéfalo (basicamente 3 sistemas de fibras)

-          Feixe Prosencefálico Medial: possui fibras que percorrem o hipotálamo lateral nos dois sentidos. Situados entre a área septal e otegmento mesencefálico;

-          Feixe Mamilo-Tegmentar: segue do núcleo mamilar para a formação reticular do mesencéfalo;

-          Estria Medular: vai da área septal aos núcleos habenulares do epitálamo, que se ligam aos núcleos interpedunculares do mesencéfalo, projetando-se para a formação reticular.
 
Funções emocionais e de memória:
                                                             
As funções emocionais e de memória utilizam dois subgrupos, relativamente distintos, das estruturas límbicas. Para as emoções são necessárias a amígdala, diversas áreas do hipotálamo, a área septal, os núcleos  anteriores do tálamo, o córtex límbico anterior e as áreas associativas límbicas. Diferentemente das emoções, que são mediadas no sistema límbico, as funções de memória estão distribuídas de forma ampla entre as áreas límbicas e não-límbicas do encéfalo. Para o processamento de alguns tipos de memória, o hipocampo, os núcleos mediais do tálamo, o córtex límbico posterior e o prosencéfalo basal são essenciais.
O complexo amigdalóide parece exercer um papel central nos processos emocionais/motivacionais. O registro da atividade dos neurônios nessa região, tanto em animais quanto em pacientes humanos, mostra que ocorre uma ativação no núcleo amigdalóide em situações com significado emocional, como encontros agressivos ou de natureza sexual. A estimulação da amígdala em pacientes humanos provoca reações de medo, raiva e sensações viscerais. Por outro lado, a lesão ou a desconexão desse núcleo provoca uma dissociação sensório-emocional.
As estruturas límbicas são importantes para os aspectos tanto do “sentimento” quanto das respostas emocionais.

Funções Comportamentais:

O comportamento é uma função de todo o sistema nervoso e não de uma parte particular.Entretanto,  a maior parte dos aspectos involuntários do comportamento é controlada pelo sistema límbico.
Talvez a parte mais importante do sistema límbico, do ponto de vista do comportamento, seja o hipotálamo, embora muitos anatomistas não incluam esse hipotálamo entre as estruturas límbicas. Muitas das partes circundantes do sistema límbico, incluindo, especialmente, o hipocampo, a amígdala e o tálamo, transmitem grande parte de seus sinais eferentes para o hipotálamo, a fim de causar efeitos variados no corpo, tais como o de estimulação do sistema nervoso aut6onomo ou de participação em sentimentos como os de dor, de prazer, ou em sensações relacionadas à fome, ao sexo, à raiva etc.
Alguns aspectos do controle límbico são transmitidos por meio do sistema endócrino, pois deve ser lembrado que o hipotálamo, além de controlar o sistema nervoso autônomo, também controla a secreção de numerosos hormônios hipofisários. O sistema límbico, atuando por meio do sistema nervoso autônomo e da glândula hipófise anterior, pode controlar a intensidade da secreção de todos os hormônios sexuais que, em seu conjunto, controlam todos os impulsos sexuais da pessoa; e a intensidade de secreção dos hormônios tireoidiano, do crescimento e dos diversos hormônios do córtex supra-renal que, em conjunto controlam a maior parte das funções metabólicas celulares, ativas dia após dia. Pode-se dizer que o sistema límbico controla o ser interno de uma pessoa.
Uma das descobertas recentes de maior importância no campo do comportamento é o chamado sistema de “prazer e dor ” ou de “recompensa e castigo” do encéfalo. Certas áreas do mesencéfalo, do hipotálamo e de outras áreas intimamente associadas a elas, quando estimuladas, fazem com que o animal sinta como se estivesse sendo intensamente castigado, como ocorreria quando experimentasse dor muito forte. Contudo, a estimulação de áreas próximas produz efeito exatamente oposto, fazendo com que o animal aparente estar experimentando prazer extremo.
Experimentos sobre a memória tem mostrado que um animal lembra os estímulos sensoriais que causem recompensa ou castigo, mas não se lembra de estímulos que não estimulem as áreas de recompensa ou de castigo. Por exemplo, um alimento que seja muito agradável ao paladar é lembrado, como também, o alimento de gosto muito desagradável.
Por outro lado, o alimento que não cause prazer ou desprazer é rapidamente esuqecido. De modo semelhante, um estímulo extremamente dploroso, como o de tocar um ferro em brasa, é muito bem lembrado, enquanto que o toque de um livro ou de um pedaço de madeira é esquecido em poucos segundos.
Portanto, no processo da memória, dois componentes diferentes devem estar presentes para que uma experiência sensorial seja lembrada. O primeiro componente é a própria experiência sensorial, e o segundo componente é uma experiência de recompensa ou de punição, isto é, uma experiência de prazer ou de dor.

Relação com a Área Pré-Frontal :
Não faz parte do circuito límbico tradicional, mas suas intensas conexões com o tálamo, amigdala e outras sub-corticais, explicam o importante papel que desempenha na expressão dos estados afetivos.
Quando o cortex pré-frontal é lesado , o indivíduo perde o senso de suas responsabilidades sociais , bem como a capacidade de concentração e de abstração. Em alguns casos , a pessoa , conquanto mantendo intactas a consciência e algumas funções cognitivas, como a linguagem , já não consegue resolver problemas, mesmo os mais elementares .Quando se praticava a lobotomia pré-frontal , para tratamento de certos distúrbios psiquiátricos, os pacientes entravam em estado de "tamponamento afetivo", não mais evidenciando quaisquer sinais de alegria , tristeza, esperança ou desesperança.Em suas palavras ou atitudes não mais se vislumbravam quaisquer resquícios de afetividade.
O córtex pré-frontal se conecta extensamente com as áreas associativas sensoriais
nos lobos pariental, occipital e temporal, bem como com as áreas límbicas.
As funções do córtex pré-frontal são o autoconhecimento (self-awareness)e as funções executivas (também designadas como o comportamento dirigidos a um objetivo [goal-oriented behavior]. As funções executivas são as següintes:
. Decisão quanto a um objetivo
. Planejamento de como atingir esse objetivo
. Execução desse plano
. Monitoração da execução do plano.


Decisões que variam das triviais às momentosas são tomadas na área pré-frontal: que roupa usar, se vai mudar de casa e se vai ter filhos são decididas e executadas por meio de instruções do córtex pré-frontal.
A inteligência é, primariamente, função das áreas associativas parieto-temporais, nos córtex  pariental e temporal posteriores.Aí ocorrem a solução de problemas e a compreensão da comunicação e das relações espaciais.
A terceira e últimas das áreas associativas corticais é a áreaassociativa límbica, situada na parte anterior do lobo temporal e no córtex órbito-frontal, por cima dos olhos . A área associativa límbica se conecta a áreas reguladoras do humor (mood) (sentimentos subjetivos), do afeto(conduta observável) e do processamento de alguns tipos de memória.
 

TRABALHO REALIZADO NA GRADUAÇÃO
DISCIPLINA: NEUROANATOMIA 





Universidade Veiga de Almeida
Centro de Ciências da Saúde
Curso de Psicologia



Disciplina: Teorias Existenciais Humanistas
Professora: Fátima Gonçalves Cavalcante
Monitora: Camila Maria Mendes Grasso



LIVRO: Eu Pierre Rivière,  que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão

Fichamento do livro: Eu Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão.




Integrantes do grupo 7:

Rita de Cássia M. M. Mussuri
Maria de Fátima P. de Melo
Salviana Almeida M. dos Santos
Fernanda Aline

Dezembro/2005




INTRODUÇÃO

            Michel Foucault  e seus colaboradores queriam investigar a relação entre a Psiquiatria e a Justiça Penal e se depararam com  o crime de Pierre Rivière. O que os fizeram ir fundo nesse   caso foi algumas contradições  nos laudos de várias autoridades, que pareciam que os mesmos estavam falando de assuntos diferentes e não unicamente do caso de Pierre Rivière. Mas o que mais incentivou Foucault foi principalmente o memorial que Pierre Rivière escrevera durante sua prisão contando detalhadamente sua vida com sua família desde a sua infância.
            Pierre Rivière matou sua mãe, sua irmã e seu irmão. No começo ele alegara que o seu ato foi a mando de Deus, pois ele o viu revestido por uma luz e junto com seus anjos disse-lhe que ele teria que salvar seu pai de todo tormento que ele vivera até aquele momento por causa de sua mãe, mas ao ser pressionado num interrogatório Pierre Rivière aboliu essa afirmativa e disse que matou sua mãe por ela atormentar seu pai fazendo-o muitas vezes pensar em suicídio; matou sua irmã pois a mesma amava sua mãe e ficara ao lado dela e matou seu irmão por amar as duas.
            Pierre Rivière foi uma criança que maltratava animais por detestar a todos. O mesmo era um rapaz que se dizia mal saber ler e escrever, mas que possuía uma memória excepcional, e uma inteligência fabulosa, entretanto as pessoas que o conhecia tinham-no como idiota e alienado. Não gostava de mulheres, vivia solitário e muitas vezes dizia conversar com o diabo.
            Foram ouvidas várias testemunhas sob juramento e também alguns parentes de Pierre Rivière em depoimentos informais, para que as autoridades pudessem tirar algum parecer de como era a pessoa de Pierre Rivière.
            O crime ocorrera  no dia 3 de Junho de 1835, sendo considerado um crime com condenação à forca, mas Pierre Rivière conseguiu se livrar dela e teve pena perpétua.
            Michel Foucault teve acesso a vários documentos e jornais que publicaram  tudo sobre o crime.
            Esse crime apesar de ter sido cometido com uma violência brutal não teve muita repercussão e o advogado de Pierre Rivière não teve muito notoriedade e nem citou esse caso nos seus escritos posteriores.
          Michel Foucault e alguns colaboradores queriam estudar a história das relações entre psiquiatria  e justiça penal. E no caminho encontraram o caso Rivière. O que lhes chamou a atenção foi que, esse caso tinha um certo número de elementos notáveis. Como uma série de três relatórios médicos, que não traziam as mesmas conclusões e não faziam exatamente o mesmo tipo de análise, mas tinham cada um uma origem e um estatuto diferente na instituição médica; declarações das testemunhas, sobretudo fragmento de um memorial, redigido pelo próprio acusado, camponês de cerca de vinte anos que se dizia mal saber ler e escrever e que tinha apreendido, durante  sua prisão preventiva, a tarefa de dar detalhe e explicação do seu crime.
            O caso Rivière não foi um “grande caso”, não teve tanta repercussão. O próprio advogado de Rivière não teve notoriedade após o caso e nem tão pouco fez alusão em seus textos a esse caso e ao seu cliente.
            Não foi só o dossiê Rivière que deteve Michel Foucault e sua equipe neste caso, mas simplesmente a beleza do manuscrito de Rivière. Foucault afirma que “ tudo partiu de nossa estupefação”. O que os fixaram neste trabalho é que se tratava  de um “dossiê”, isto é, de um caso, de um acontecimento em torno do qual vieram se cruzar discursos de origem, formal, organização e função diferentes. Todos falam ou parecem falar da mesma coisa, mas todos eles  não foram nem um texto, nem uma obra, mas sim uma batalha de discursões, uma luta singular, um confronto, uma relação de poder.
            O crime aconteceu em 3 de Junho de 1835, na residência do Sr. Pierre – Margrin Rivière, proprietário agricultor que estava ausente de casa desde a manhã.
            Quando as autoridades chegaram  ao local do crime encontraram três cadáveres estirados  no chão. Primeiro  uma mulher por volta dos quarenta anos, caída de costas em frente à chaminé, onde parece que estava ocupada no momento em que foi assassinada, cozinhando um mingau. Estava vestida de maneira habitual, e despenteada; tem o pescoço e a parte posterior do crânio cortados e ferido a cutelo; segundo um menino de sete a oito anos, caído de bruços, o rosto contra o chão, tendo a cabeça fendida por trás muito fundamente; terceiro a moça, caída de costas, os pés sobre a soleira da porta, o bastidor de fazer renda no colo, há um grande punhado de cabelos que parecem ter-lhe sido arrancados no momento do crime; o lado direito do rosto e o pescoço profundamente feridos a cutelo. Parecia que essa infeliz jovem trabalhava em sua renda, pois seus tamancos ficaram perto da cadeira que ali se encontrava.
Nomes das vítimas: Primeira:  Victoire Brion (estava grávida);
Segunda: Jules Rivière;
Terceira: Victoire Rivière.
Pierre Rivière fugiu imediatamente após o crime.
            O Senhor Juiz solicitou aos médicos que fizessem todas as operações  que julgassem necessárias para assegurar e constatar as causas das mortes.

Laudo dos médicos que constataram as mortes
 Primeiro cadáver (da mãe do assassino), tinha uma imensa quantidade de sangue espalhada em volta da cabeça; o pescoço do lado direito e a parte anterior , assim como o rosto, estavam despedaçados, que as vértebras cervicais estavam literalmente separadas do tronco, a pele e os músculos do lado esquerdo sustentavam ainda a cabeça; o parietal do lado direito inteiramente despedaçado, o golpe  prolongou-se na direção da parte mais alta do crânio e com tal violência, que os ossos e os músculos parecem um mingau. Devido a mulher está grávida foi feito à autópsia do cadáver. Foi encontrado um feto feminino com mais ou menos seis meses de gestação. O estômago, tendo sido aberto estava completamente vazio. Os médicos  não levaram  mais longe as pesquisas, pois a causa da morte estava positivada, pois a cabeça se encontrava quase separada do tronco; a morte deve ter sido instantânea, uma vez que as jugulares e as artérias carótidas tinham sido cortadas.
Segundo cadáver (irmão de sete ou oito anos do assassino), estava deitado com o rosto contra o chão, a cabeça no meio de uma enorme quantidade de sangue, nota-se na parte lateral e na posterior largas e profundas incisões que penetraram violentamente na parte anterior do cérebro em diversos sentidos, assim como numerosos golpes que devem ter atingido o cerebelo, visto que a abóbada craniana podia ser facilmente destacada; um golpe foi igualmente desferido sobre a nuca e, sem ter lesado as vértebras cervicais, vários outros golpes foram igualmente desferidos sobre os ombros e atravessaram a blusa e as outras roupas; de resto, esses últimos ferimentos não oferecem por si muita gravidade; não achamos necessário proceder  ao exame das cavidades pélvicas e torácica, pois a causa da morte estava positivada, visto que o cérebro e o cerebelo tendo sido destruídos, as artérias que os percorrem foram inteiramente partidas.
Terceiro cadáver  - mocinha de aproximadamente dezoito anos (irmã do assassino), caída de costas, calçada apenas com meias, roupas em desordem, a cabeça descoberta; os cabelos desfeitos foram puxado, e vê-se uma quantidade deles a seus pés, e os braços estão quase cruzados sobre o peito; o lenço e o peitilho foram arrancados, o que prova que a vítima ofereceu resistência a seu assassino. No lado direito do pescoço notam-se dois grandes e profundas incisões;  a primeira inferior, cortou não só a pele e os músculos como também a artéria carótida; a segunda vértebra cervical foi inteiramente separada. Acima desta  primeira incisão, encontra-se igualmente várias outras na mesma direção, que, apesar de profundas, foram interrompidas pelo ramo ascendente do maxilar inferior; o rosto está sulcado em diversos sentidos por largos e profundos ferimentos, o maxilar inferior encontra-se quase separado na direção da sínfise do queixo, o maxilar superior encontra-se igualmente partido por um golpe que, dirigindo-se à  parte de cima das órbitas, quase atingiu o cérebro, uma incisão oblíqua da direita  para a esquerda separou inteiramente as fossas nasais. De acordo com essas observações seria inútil a autópsia do cadáver.
            Algumas testemunhas foram ouvidas dentre elas Marie Riviére de setenta e quatro anos que disse que entre onze  e meia e meio dia, viu a mocinha Victoire na porta, e seu irmão a segurava pelos cabelos. Ela parecia querer escapar. Ao se aproximar deles a Senhora Marie viu que Pierre segurava uma foice e gritou: “Ah, desgraçado o que vai faze!”  Tentou mobilizá-lo o braço, mas no mesmo instante ele desfechou sobre a cabeça de sua infeliz irmã que a fizeram cair morta no chão. Isso ocorreu em menos de um minuto. Ele fugiu.
            O Sr. Jean Postel de cinqüenta anos, perto do meio dia voltando de colher forragem escutou a voz da viúva gritando: “Ah, meu Deus que desgraça! Ah, meu Deus que desgraça! E no mesmo instante também ouviu outra voz que ele não conhecia gritar: “Eles estão todos mortos.” E chegando perto da porta  da estrebaria avistou Pierre Rivière que segurava uma foice ensangüentada e sua mão também ensangüentada. E Pierre ainda lhe disse: “Tome cuidado para que nada aconteça a minha mãe”. Sr. Jean Postel não entendeu nada e acredita que ele estava se referindo a sua avó.
            Victoire Aimée Lerot, quarenta anos, viu Pierre Rivière sair da casa segurando uma foice ensangüentada e disse a essa Senhora: “Acabo de livrar meu pai de todas as suas infelicidades. Sei que me matarão, mas isso não me importa”. E acrescentou: “Recomendo-lhe minha mãe”.
            Através do relatório  do Procurador do Rei em Vire, foi aberto um inquérito e foi tomada medidas para que a prisão de Pierre Rivière fosse efetuada.
            O Procurador do Rei achou por bem escutar sem juramento o pai, a avó e uma das irmãs do acusado. E nesses depoimentos se soube um pouco como era a pessoa de Pierre Rivière.
            “Pierre Rivière  foi desde a infância motivo de aflição para sua família. Era obstinado e taciturno; a companhia mesmo de seus pais, era-lhe aborrecida. Jamais mostrou por seu pai ou sua mãe afeição de um filho. Sua mãe mais do que ninguém era-lhe  odiosa. Ele experimentava às vezes, ao aproximar-se dela, como que um movimento de repulsa e frenesi.
            Pierre Rivière tinha de resto, em todos os hábitos da vida, essa dureza de caráter que desesperava sua família. Havia quem se lembrasse de tê-lo visto, em sua infância, ter prazer em esmagar passarinhos entre duas pedras, ou perseguia crianças de sua idade com instrumentos com que as ameaçava de morte.
            Às vezes  escapulia da casa de seus pais e procurava um local retirado nas pedreiras, onde passava a noite. De volta de suas excursões noturnas, dizia ter visto o diabo e com ele ter compactuado.
            Notou-se sempre sua aversão pelas mulheres.
            Em dados momentos falava sozinho, animava-se e exaltava-se.
            À medida que crescia, dedicava-se com ardor à leitura de certos livros, e sua memória era-lhe extremamente  útil em suas leituras... Parece que em certa época passava a noite lendo algumas obras filosóficas.
            Da irreligião passou a uma grande religiosidade, ou pelo menos às práticas aparentes da devoção.
            Seu pai surpreendeu-o, à noite, lendo o catecismo de Montpellier.
            Durante o ano que acaba de escoar-se, comungou duas vezes sua Páscoa.
            No sábado, dia trinta do mês passado, usou suas roupas de festa, e no dia do crime, depois de ter trocado três vezes de roupa, vestiu-se como aos domingos. Vendo isto, sua avó disse-lhe: “O que afinal você pretende?” Ao que ele respondeu: “A Senhora saberá esta noite”. Nesta manhã Pierre Rivière queixou-se de um grande mal-estar; estava com náuseas, dizia ele.
            Solitário, feroz e cruel, eis Pierre Rivière encardo sob seu aspecto moral; é de certa maneira um ser à parte, um selvagem que escapa às leis da simpatia e da sociabilidade, pois a sociedade era-lhe odiosa quanto a sua família, e ele perguntava ao seu pai se não seria possível ao homem viver  no mato, de ervas e raízes.”
            Depois de ter cometido o crime, Pierre Rivière não se apressou em fugir; saiu impassível  e apresentou-se, com toda a calma e as mãos  tintas de sangue, as duas pessoas às quais falou: “Acabo de libertar meu pai, agora ele não será mais infeliz”, e caminhou em seguida tranqüilamente, como se nada houvesse acontecido, com sua foice gotejante de sangue.
            Pierre Rivière foi visto em vários lugares, e quando lhe perguntavam de onde ele era, ele respondia  que era de toda parte.
            Pierre Rivière foi reconhecido devido seus sinais particulares e foi preso. E ao ser perguntado porque matou sua mãe, ele respondeu que ela pecara diante de Deus. Perguntaram também porque matou seu irmão e sua irmã, ele disse que eles pecaram ficando em companhia de sua mãe. Foi lhe perguntado também o que fizera com da foice que usou para cometer o crime, disse tê-la jogado em um campo de trigo. Ele ficou preso na casa de detenção e mal chegou procurou escapar, mas foi impedido.
            Pierre Rivière foi preso com vários objetos como  duas facas, um canivete, um bastão de enxofre , um pedaço de barbante e um arco e flecha. Não quis responder nenhuma das  perguntas que o Procurador do Rei lhe fizera.
            Michel Foucault e sua equipe teve acesso  à alguns artigos de jornais que falavam sobre os crimes que Pierre Rivière cometera e alguns de seus motivos.
            Pierre Rivière viveu algum tempo nos bosques e nos campos. Comprou pão durante uns dias com algumas moedas que trazia com ele na hora do crime. Depois alimentou-se de ervas , folhas e frutos selvagens. Fabricou um arco e flecha para matar pássaros, mas não conseguiu atingir nenhum. Ele disse ter cometido o crime por ordem do céu, que Deus pai lhe apareceu em meio a seus anjos; que ele estava resplandecendo de luz; que ele lhe disse para fazer o que fez, e prometeu não abandoná-lo. Pierre Rivière não demonstra nenhuma emoção, nenhum arrependimento. E disse também que era necessário isso acontecesse. Segundo Pierre Rivière, planejou  com antecedência a execução, a afiou seu machado durante vários dias, esperando que o momento chegasse. Ele finge acreditar que será posto em liberdade e reconduzido ao bosque.
            Rivière é de altura mediana, moreno, tez queimada. Baixa os olhos de maneira sombria, e parece temer olhar de frente os que lhe falam. Responde a tudo por monossílabos. Suas respostas demonstram o fanatismo ou a loucura, mas em caráter grave. É um iluminado frio. Diz que lia muito, notadamente livros religiosos. Seguia  escrupulosamente  os ofícios da igreja, não brincava com os jovens de sua idade, não tinha e nem desejava ter amantes. Come muito agora, como um homem que sofreu muita fome. Seu sono parece ser calmo e sua alma sem remorsos.
            No dia 9 de Julho  de 1835 Pierre Riviére compareceu ao seu primeiro interrogatório, durante o qual foi procedido oralmente como a seguir.
P: Quais são seu nome, sobrenome, idade, profissão e domicílio?
R: Pierre Rivière, vinte anos, agricultor, nascido na comuna de Courvaudon e habitante em Aunay.
P: Porque motivo você assassinou sua mãe, sua irmã Victoire e seu irmão Jules?
R: Porque Deus me ordenou para que justificasse sua providência, eles estavam unidos.
P: O que você quer dizer com “eles estavam unidos”?
R: Eles estavam de acordo, os três, para perseguir meu pai.
P: Você acaba de me dizer que Deus lhe ordenou os três assassinatos dos quais você é acusado, no entanto você bem sabe que Deus jamais ordena o crime.
R: Deus ordenou a Moisés que degolasse os adoradores do bezerro de ouro, sem poupar amigos, pai ou filhos.
P: Quem lhe ensinou estas coisas?
R: Eu li no Deuteronômio: Moisés, dando a sua benção à tribo de Levi, disse: Vossa graça e vossa plenitude foram dadas ao santo homem que vós escolhestes, que disse a seu pai e sua mãe: Eu não vos conheço e a seu irmão: Eu não sei quem é você. Eis aqui, Senhor, os que observaram vossas leis e vossa aliança, e que vos oferecerão incenso para vos apaziguar em vossa cólera.
P: Então você leu várias vezes a Bíblia?
R: Sim, eu li várias vezes o Deuteronômio e o livro dos números.
P: Você tirou conseqüências bem funestas de algumas passagens de um livro que você não compreendeu?
R: Meu pai era perseguido, teriam duvidado da providência de Deus.
P: Desde quando você tomou por hábito ler a Bíblia?
R: Há muito tempo, há dois ou três anos.
P: Você também habitualmente lia livros piedosos?
R: Sim, eu lia o Catéchismo de Montpellier.
P: Você leu anteriormente obras de natureza diversa?
R: Sim, eu folheei durante mais ou menos duas horas a obra intitulada o Bom Sens du cure Meslier.
P: Que impressão lhe causou a leitura desta obra e o que você viu nela?
R: Eu não acreditava na religião naquele tempo. Duvidava dela. Não foi esta obra que me tirou a religião, mas ela confirmou minhas dúvidas.
P: De que outra obra você quer falar?
R: Li em almanaques e na geografia que a terra era dividida em várias partes e duvidava que Adão, criado em uma dessas partes, tivesse sido possível à sua posteridade povoar as outras.
P: Em que época você concebeu o execrável projeto que executou a três de Junho passado?
R: Quinze dias antes.
P: Por que e em que ocasião você concebeu semelhante plano?
R: Porque meu pai era perseguido e vi Deus que me ordenou.
P: Explique-me o que você viu.
R: Não podia trabalhar por causa das perseguições que meu pai sofria. Estava em um campo quando Deus me apareceu acompanhado de anjos e me deu ordens para justificar sua providência.
P: Bem antes desta época você manifestou sentimentos de ódio contra sua mãe, seus irmãos e irmãs, e mesmo  contra seu pai.
R: Eu não podia gostar de minha mãe por causa do que ela fazia, mas não tinha nenhuma má intenção contra ela, aliás, os mandamentos de Deus me proibiam de lhe fazer mal.
P: Como você pôde acreditar depois que existissem mandamentos inteiramente opostos?
R: Porque fui particularmente ordenado por Deus como Levitas o foram, apesar de então já existirem os mesmos mandamentos.
P: Você pretende desculpar seus crimes dizendo coisa absurda e ímpia, que eles lhe foram ordenados por Deus; confesse antes que, infelizmente nascido com um gênio feroz, você quis se banhar no sangue de sua mãe a quem detestava há muito tempo, sobretudo desde que resolveu  separar-se de seu pai.
R: Eu repito: Deus me ordenou o que fiz. O senhor cura havia dito a meu pai que rezasse, assegurando-lhe que Deus o livraria de seus apuros. Se isso não acontecesse, duvidar-se-ia da existência de Deus ou de sua justiça.
P: Você revelou a alguém o que pretende ter-se passado em um campo quinze dias antes de seu crime?
R: Não.
P: Temendo que sua imaginação exaltada o enganasse, por que não procurou alguém esclarecido para expor suas idéias?
R: Não achei que devesse fazê-lo.
P: Você confessou, ao que parece, algum tempo antes, pois comungou pela Páscoa, e teria sido bem simples consultar seu confessor. Por que não o fez? Suas três vítimas estariam ainda vivas se você tivesse assim  procedido.
R: Não fiz e nem achei  que deveria fazê-lo.
P:  Não é verdade que algumas vezes você manifestou ódio contra seu pai?
R: Isto não é verdade.
P: Acusam-no de ter cometido em sua infância atos de uma crueldade fria e refletida, como por exemplo ter esmagado passarinhos entre duas pedras e perseguido, ameaçado de morte com instrumentos que tinha nas mãos, jovens companheiros que brincavam com você?
R: Não me recordo de ter feito isso, aconteceu-me somente algumas vezes matar passarinhos lançando-lhes pedras, como fazem os escolares para matar galos.
P: O que você fez com o livro que foi visto lendo na aldeia de Flers depois da fuga?
R: Eu não tinha livro nenhum comigo. Não li nenhum.
P: Você contradiz a justiça neste ponto, pois viram-no no burgo de Flers segurando um livro na mão.
R: Talvez fosse um velho almanaque que eu tinha. Tinha também algumas folhas de papel.
P: O que você queria fazer com a espécie de arco e flecha que se encontrava em seu poder no momento de sua prisão?
R: Queria usá-los para matar pássaros.
P: E o enxofre que foi encontrado também com você, o que  ia fazer com ele?
R: Ia servir-me dele para acender o fogo no mato.
P: Você desejava viver no mato?
R: Sim.
P: Você também tinha duas facas em seu poder?
R: Sim, habitualmente eu tinha duas em casa de meu pai, e das duas que foram aprendidas comigo, uma servia-me para arrancar raízes e outra para raspá-las.
P: Você tem bastante inteligência para saber que não seria possível evitar a pena que a lei impõe aos assassinos e aos  parricidas;  como se explica que esta idéia não lhe  tenha feito desistir dos crimes que cometeu?
R: Eu obedeci a Deus; não achei que houvesse mal em justificar sua providência.
P: Você bem sabia que agia mal, tanto que imediatamente após os crimes  fugiu, furtou-se durante muito tempo a todas as buscas, e mesmo tomou precauções para viver no mato.
R: Retirei-me para o mato para aí viver solitário.
P: Por que não se retirou para o bosque, se tal era sua intenção, antes de assassinar seus parentes?
R: Eu não tinha esta intenção antes do meu ato; por meu ato fui consagrado a Deus, e então quis tornar-me solitário.
P: Até aqui você quis impor isso à justiça, você não diz a verdade; ontem, ao que parece, você estava com melhor disposição; diga-nos pois, francamente, hoje, qual o motivo  que o levou assassinar sua mãe, sua irmã e seu irmão.
R: Sustentei até então um argumento e um papel que não quero sustentar por muito mais tempo. Quero dizer a verdade; foi para tirar meu pai de apuros que fiz aquilo. Quis livrá-lo  de uma mulher má que o atormentava continuamente, desde que se casou com ele, e que o arruinava, que o levava a tal desespero que às vezes ele era tentado  a suicidar-se. Matei minha irmã Victorie porque tomava partido de minha mãe. Matei meu irmão porque amava minha mãe e minha irmã.
            Aqui o acusado faz com ordem e método uma narrativa muito detalhada e que dura mais de duas horas. É o histórico dos inumeráveis vexames que, segundo ele, seu pai sofreu por parte de sua mulher. Rivière promete-nos transmitir por escrito tudo que nos declarou.
            Nos depoimentos feitos pela testemunhas, pode-se perceber as minhas observações de que Pierre Rivière desde a mais tenra  idade demonstrou  ser cruel. Tinha prazer em  assustar crianças e torturar animais. Trazia habitualmente nos bolsos pregos e tachas destinados a prender às árvores os animais que maltratava. Maltratava inclusive os cavalos de seu pai. Chegou a matar um gato  com um garfo de estrume que pertencia  a uma das testemunhas. Falava sozinho e dava  umas risadas horríveis e gritos assustadores, e quando alguém lhe perguntava porque fazia isso ele  respondia que era o diabo. Pierre Rivière tinha medo de mulher e ficava parado olhando a lareira e dizia que o diabo estava lá dentro. Uma vez matou um galo que um de seus irmãos gostava muito. Pierre Rivière tinha prazer em tirar as peles das rãs e crucificá-las, assim como fazia com os pássaros.
            Riviére passava por todos como  os que o conheciam como idiota e imbecil.
            No dia 18 de Julho de 1835  aconteceu o segundo interrogatório de Pierre Riviére, que se segue na íntegra.
P: O manuscrito que você enviou-me, e em cuja escrita você vem se ocupando desde o interrogatório do dia nove deste mês, contêm apenas verdades?
R: Sim.
P: Existem alguns fatos que você não lembrou em suas memórias; por exemplo: você não disse que um dia amarrou as pernas de seu irmão Prosper à cremalheira, onde havia um fogo bem forte, ficando-lhe as meias chamuscadas, e provavelmente teria ficado gravemente queimado, se uma vizinha não houvesse cortado a corda que prendia à cremalheira.
R: Este fato foi exagerado; meu irmão não sofreu nada, e não correu nenhum perigo; é possível que eu tenha querido meter-lhe medo, mas é tudo. Chamo atenção para o fato de que eu tinha o costume de aquecer-me assim, passando meus pés por uma corda que amarrava à cremalheira, e, tendo meu irmãozinho vontade de fazer o mesmo, ajudei-o, há sete anos atrás.
P: Parece que há bastante tempo  você se divertia assustando as crianças que se aproximavam de você.
R: Sim, isso aconteceu-me muitas vezes, não queria fazer-lhes mal.
P: Isto lhe acontecia muitas vezes ; logo devemos pensar que lhe dava prazer ver seu pavor  e escutar seus gritos?
R: Isto me divertia um pouco, mas repito que não lhes queria fazer nenhum mal.
P: As averiguações a seu respeito trouxeram à tona alguns atos seus que mostrariam em seu caráter  um instinto de ferocidade. Como você mesmo confessou em seu manuscrito, muitas vezes você crucificou rãs ou passarinhos; que sentimentos levava você a fazer semelhantes coisas?
R: Eu tinha prazer nisto.
P: Você tinha prazer bem grande nisso, pois ficou provado que tinha quase sempre nos bolsos pregos e tachas, a fim de obter, sempre que tivesse oportunidade, uma satisfação da qual era muito ávido. Dizem mesmo  que você passava horas inteiras contemplando as vítimas de  sua crueldade e espiando, a rir, sua dor.
R: É verdade que me divertia com isso; é possível que tenha rido, no entanto o prazer que eu tinha não era tão grande assim.
P: Um dia você não ameaçou um de seus irmãos de cortar-lhes as pernas com uma foice que tinha nas mãos? Foi seu irmão Jean, hoje falecido, não?
R: Nunca tive intenção de fazer-lhe mal; não me lembro exatamente do fato ao qual o Sr. Se refere, mas, se é verdadeiro, era de minha parte, somente uma brincadeira.
P: Parece que você detesta gatos e frangos.
R: Sim, detestei por muito tempo os gatos e os frangos, e em geral todos os animais, e isto por aversão ao crime da bestialidade.
P: Você sempre foi extremamente teimoso; por que, algumas semanas antes de seu crime, tentou, apesar de todas as advertências possíveis, fazer um cavalo, atrelado a uma carroça carregada, subir em um monte de estrume, sem a menor necessidade, sendo evidente que iria ferí-lo ou mesmo matá-lo?
R: Eu estava convencido ser possível fazer subir a carroça no monte de estrume, tornando assim o trabalho mais rápido.
P: Mais ou menos na mesma ocasião, estava você transportando na carroça troncos de árvores quando, chegando ao alto de uma encosta, os troncos desarrumaram-se de tal jeito, que ameaçavam esmagar seus cavalos; você insistiu em descer a colina sem fazer qualquer alteração no carregamento de sua carroça. Não maltratou seus animais para fazê-los avançar apesar das advertências do Sr. Hamel, que via o perigo iminente a ameaçar seus cavalos e previniu-o disso?
R: Isto não é verdade; parei voluntariamente minha carroça assim que percebi estar mal carregada.
P: Há aproximadamente dois anos você, ao que parece, cometeu a crueldade de matar um galo que pertencia ao seu irmão Prosper, e ao qual a infeliz criança, que estava doente nesta época, era bastante apegada.
 R: Não contribuí em nada para a morte do galo; dei-lhe de comer, e este pássaro não comia ainda sozinho.
P: Você tinha, então, no mínimo dezoito anos; por que, apesar desta idade, fez uma coisa que somente as crianças fazem: acompanhados de crianças da aldeia, e simulando as pompas de um enterro, foi enterrar o galo, para o qual você fez até mesmo um epitáfio?
R: Este fato é verdadeiro, eu me divertia fazendo isto.
P: Quer me dizer qual era o epitáfio?
R: Era mais ou menos assim: “Aqui jaz o corpo do galo Charlot, de Proper, originário da parte baixa do grande Yos, falecido a ...”
Coloquei do outro lado do papel:
“Outrora foi incluído entre os vivos.
Das atenções de um ser humano era o único objeto.
A esperança dizia que um dia de sua linguagem todos os povos maravilhados viriam render-lhe homenagens.
E ele morre!...”
P: Um dia você não disse a seu pai que iria fazer como os bichos de chifre, que iria correr como vacas no cio?
R: Sim Senhor, fazia muito calor, eu disse isto a meu pai e fugi para nossa casa, para aí beber um trago; aquilo foi uma brincadeira.
P: Mas falou-se que seu pai neste mesmo dia, depois de procurá-lo durante muito tempo, encontrou-o na estrebaria inteiramente nu.
R: Foi num outro dia, minhas roupas ficaram completamente encharcadas em conseqüência de uma tempestade e, como a porta da casa ainda não tivesse sido aberta, pois meus pais ainda não tinham voltado, despi-me na estrebaria.
P: Por que você deu o nome de Calibine a um instrumento de que você fala em seu manuscrito, instrumento que você destinava a matar pássaros?
R: Inventei este nome, estava preocupado em encontrar um nome que não pudesse designar nenhum outro objeto.
P: Por que, seguido das crianças da aldeia, você foi enterrar esse instrumento?
R: Quando eu o enterrei estava sozinho; quando fui desenterrá-lo disse às crianças da aldeia  o que ia fazer, e elas me seguiram.
P: Mas por que você o enterrou?
R: Trabalhei muito tempo nele, não queria destruí-lo e, para conservá-lo, guardei-o debaixo da terra.
P: Reconhece esta foice que lhe apresento?
R: Sim, Senhor, é o instrumento do crime.
P: Como, infeliz a visão deste instrumento não te faz verter uma só lágrima?
R: Sou resignado com a morte.
P: Você se arrepende, ao menos, de haver cometido esses crimes horrorosos que você confessa, de ter-se banhado no sangue de uma parte da família? Você tem realmente remorso?
R: Sim, Senhor, uma hora depois de meu crime minha consciência me dizia que eu havia agido mal, e não teria recomeçado.

            Rivière não é um maníaco religioso como a princípio tentou parecer; não é também um idiota, como algumas testemunhas parecem ter acreditado; assim a justiça só pode ver nele um ser cruel que seguiu o impulso do mal, pois, como todos os grandes criminosos, abafou o grito de sua consciência, e não combateu suficientemente as inclinações de sua natureza cruel.
            Rivière  a princípio queria se parecer como um alienado, como um doente mental ao declarar que cometeu seus crimes a mando de Deus, para se libertar da prisão, mas à partir do momento em que deixou essa afirmação de lado, dizendo que assim o fez para livrar seu pai dos tormentos de sua mãe, que muitas vezes o fazia pensar em suicídio, e que matara sua irmã por ficar com sua mãe e amá-la e, seu irmãozinho por amar as duas, a tese de alienado e doente mental veio por terra e, assim, foi pedida a sua condenação.
            As autoridades perceberam através de seus depoimentos e do memorial que Rivière escrevera como era a sua vida e de sua família desde a sua infância, de que de alienado e de doente mental ele não tinha nada. Ele era dotado de uma inteligência muito grande, de uma memória fabulosa, onde tudo se grava facilmente e nada se apaga, só que às vezes fazia interpretações erradas das leituras que fazia.
            Rivière nutria ódio pela mãe devido o sofrimento que a vida toda causara no seu pai. Não gostava  de viver socialmente, gostava da solidão e muitas vezes se isolava.
            Assim é Rivière, sombrio, sonhador, com uma imaginação ardente, cruel e violenta.
            Na prisão RIvière foi visitado e observado por um competente médico. Nada, aos olhos deste homem de ciência, denunciou a menor deficiência intelectual,  se esta tentativa de sua parte de se fazer passar por louco para escapar à justiça não testemunhavam o bastante sobre a perfeita compreensão que tinha de seus atos, e as conseqüências que deles poderiam advir, sua inteligência seria evidenciada em um documento bastante detalhado, redigido por ele após sua prisão. Sem dúvidas muitos dos pensamentos que aí são expressos denotam uma deplorável deturpação de idéias e de juízo, mas está longe de ser obra de um alienado, e o estilo não é o que há de menos surpreendente nesta singular composição.
            Seu crime foi premeditado e voluntário, portanto sua prisão e condenação foi pedida.
            O Memorial
            Pierre Revière, detalha nesta parte do livro, querendo justificar a ação dos atos de ter degolado sua mãe, sua irmã e seu irmão, descrevendo com detalhes toda vida de seu pai e sua mãe durante o seu casamento.
Sua mãe maltratava-o, tratava-o com muito desprezo , era uma mulher ruim. Tratava mal todas as pessoas ao seu redor, principalmente a seu marido. Se fazia de vítima perante à justiça, a quem sempre recorria quando se sentia no prejuízo ou quando queria prejudicar seu marido. Fazia muitas dívidas para seu marido pagar, e ele sempre pagando e dando seu jeito para pagar mesmo quando não tinha condições, queria sempre desmoralizá-lo perante as pessoas de sua aldeia, tornando sua vida muito infeliz. Ele sempre tentando proteger seus filhos e ela usando isso contra ele. Ela tinha problemas de relacionamento com todos de sua família e da família dele também, brigava por vários motivos , financeiros principalmente.
Um casamento que apesar de muito “turbulento” , tiveram vários filhos, e em quase todas suas gravidezes ficara muito doente e sempre quem a cuidava era seu marido, sua mãe e sua sogra e que sempre os maltratava.  E apesar de tudo que ela fazia ele ainda a amava e o fazia um maior sofrimento.
Foram tantos acontecimentos, que após muito tempo de resistência ele se sentiu fracassado a ponto de pensar em suicídio, caindo em um abatimento profundo.
Pierre  amava muito seu pai , sempre escutou as histórias e conviveu com todas as situações provocadas por sua mãe, a quem nunca perdoou e com nunca sentiu vínculo materno, sempre preferiu seu pai.
Descreveu também seu sofrimento e crescimento dentro desse convívio. Lá pelos seus sete ou oito anos, teve uma grande devoção, e pensou em ser padre e contou com seu pai para que isso se tornasse realidade, seu pai sempre o apoiou, após um tempo suas idéias se modificaram e pensava que seria como os outros homens. Teve problemas na escola, os outros meninos zombavam muito dele e acabou  deixando de ir. Passou à trabalhar com seu pai, porém gostava muito de ler e com isso leu muito sobre assuntos diversos inclusive sobre a bíblia. Se sentia superior às outras pessoas e tinha problemas para se  socializar. Tinha brincadeiras mórbidas com rãs e pássaros para fazê-los parecer , e chamava isso de diversão. Freqüentava assembléias e feiras para se instruir, pensava em subir na vida e  tinha desejos de glórias,  tinha acima de tudo um grande amor por seu pai e suas infelicidades o incomodavam demais. Todas as suas idéias se voltaram para essas coisas e nelas se fixaram , daí se concebeu o horrível projeto que executou, esqueceu completamente dos princípios que deviam fazer respeitar sua mãe, irmã e seu irmão. Viu seu pai como se ele estivesse em mãos de cães raivosos, contra os quais ele deveria lutar para salvá-lo. A religião proibia tais coisas, mas ele esquecia suas regras, era como se Deus tivesse destinado à isto, apesar de uma pessoa sábia, de saber sobre justiça, política e sobre as leis humanas, ele quis desafiar como se fosse um guerreiro morrendo pelo seu pai. Se comparou até com a história de Jesus morrer para salvar os homens, para resgatá-los da escravidão dos demônios... e ele para libertar seu pai de tanto sofrimento, tomou então a horrível decisão. “ Estava resolvido matar os três: as duas primeiras por estarem de acordo para fazer meu pai morrer, e quanto ao pequeno eu tinha duas razões: a primeira por ele amar minha mãe e minha irmã, e a outra porque temia que, se matasse somente as outras duas, meu pai, embora sentido por isto grande horror, ainda me lastimasse quando soubesse que morrera por ele, eu sabia que ele amava aquele menino que era inteligente, pensava: ele terá tanto horror de mim que se regozijará com minha morte, e por isso ficará livre das lamentações e viverá mais feliz”. Pensou em se matar logo após o crime e tentou escrever um relato durante sua trama, mas sua irmã o pegou escrevendo e perguntou o que era, deu-lhe uma desculpa dizendo que seria um relato para o juiz defendendo seu pai de mais uma de sua mãe, tentou escrever durante as noites mas dormia, então desistiu e queimou o que já havia escrito, ele queria com isso  ficar glorificado por matar a mulher que pertubava a tranqüilidade e a felicidade de seu pai, em sua imaginação ele iria subir na vida e se cobrir de glórias. Tinha medo da reação de seu pai com toda essa história, tinha medo que ele se suicidasse. Antes mesmo que cometesse tal crime, lhe surgiu a falta de coragem algumas vezes, até que então o cometesse e, logo após se sentiu enfraquecer aquela idéia de glória, recuperou sua razão, se achando um monstro, que por mais desgraçadas fossem as vítimas não mereciam aquilo. E durante um mês até sua prisão, andou sem rumo, pensou em várias formas de suicídio, pensou em se entregar e nas várias explicações que iria dar. Pensou na hipótese que seu pai poderia estar sendo acusado de cúmplice e ele não se perdoaria por isso. Tinha que voltar e se entregar.
“... refleti que não poderia ser bem sucedido dessa maneira, e sentindo que somente uma aberração poderia ter-me levado a cometer aquele crime, resolvi entregar-me à justiça e fazer-me prender em Vire, mas eu temia dizer a verdade; minha primeira intenção foi portanto dizer que estava arrependido, mas pensei em dizer que tinha sido levado a isto por visões, que obcecado por todos os ferimentos de meu pai, tinha visto espíritos e anjos que me tinham mandado fazê-lo por ordem de Deus, que sempre tinha sido destinado a isto, e que eles me levariam para o céu depois de ter realizado aquela ação, que tinha cometido em razão dessas idéias, mas logo em seguida tinha caído em mim, e tinha-me arrependido; o que na verdade acontecera...”
E após um mês  se entregara não sabendo qual seria sua explicação, a princípio falou essa citada anteriormente após declarou a verdadeira versão de sua trama declarando sua monstruosidade e foi na prisão que Pierre Rivière declarou tudo que tinha o levado a esse crime neste manuscrito. 
Pareceres Médico - Legais
            Certificado do doutor Bouchard
            Em Revière nenhuma doença pôde transtornar as funções do cérebro, e nas numerosas visitas que lhe fiz na prisão, não observei nele nenhum sinal de alienação mental. Não se pode, atribuir o triplo assassinato de que é culpado senão a um estado de exaltação momentânea, conseqüente dos sofrimentos de seu pai.
            Parecer do doutor Vastel
            Um jovem de vinte anos matou com premunição e a sangue-frio  sua mãe, sua irmã e seu irmão. Deixando a seguir com calma o local onde esta cena de horror acabara de se passar, apresentando-se diante dos vizinhos, e coberto de sangue, o machado na mão, anuncia-lhes que acabara de libertar seu pai, recomenda-o a seus cuidados, afastando-se lentamente, e desaparece.
            Um mês depois ele é preso na estrada e conduzido à prisão de Vire. Lá, interrogado pelo procurador do rei e pelo juiz de instrução, confessa tudo o que fez, entra em todos os detalhes, e explica os motivos que o levaram a agir assim. A pedido desses magistrados, escreve, ele mesmo, um longo memorial onde se descreve verdadeiramente.
            Seu pai procura um  bom advogado alegando que seu filho é louco, e que é conhecido como tal desde a sua infância, e fornece provas disso ao seu defensor, que após um longo e prudente exame compartilha da mesma convicção. E com profunda e completa convicção de que a inteligência de Revière não era sadia e que o ato que, aos olhos do ministério público, passava por um crime horrível, não era mais que o deplorável resultado de uma verdadeira alienação mental.
            Revière  é desde a primeira infância atacado de alienação mental.
            Esta alienação tem raízes na própria família de Revière, onde a loucura é hereditária.
            As circunstâncias em que viveu aumentaram ainda mais esta afecção primitiva.
            A loucura manifestou-se por uma porção de atos anteriores e estranhos  ao crime que lhe é atribuído; estes atos são numerosos, narrados por um grande número de testemunhas e faziam com que Revière fosse geralmente chamado de louco e imbecil.
            Sua alienação não pode ser mais clara na concepção de seu horrível projeto e nos motivos que o levaram a imolar seu irmãozinho.
            Ela é reencontrada inteiramente na calma com que o executou e na maneira que fala disto imediatamente depois.
            A razão mais ampla de que ele parece gozar depois é explicada pelo forte abalo moral que produziu nele o sangue que derramou.
            A relação de suas memórias está  longe de excluir a existência de alienação anterior ao parricídio.
            Enfim, o retorno de Revière a idéias mais só pode não ser de longa duração, e, se ele não é culpado, é no mínimo perigoso, e deve ser isolado em seu próprio interesse e sobretudo no da sociedade.
             O processo
Tribunal do júri:
Após uma recusa formal do Sr. Aimé Bardow em ser advogado de Pierre Rivière, o mesmo poderia escolher outro, porém o acusado diz: “não , não escolhi e não creio que deva escolher um”, mesmo assim foi designado o Sr. Berthauld, advogado em Caen.
O processo foi composto de 14 jurados , 13 testemunhas de acusação, 9 testemunhas de defesa e atestado dos habitantes de Aunay onde segue com 52 assinaturas reconhecidas pelo prefeito  em 4 de novembro de 1835.
De acordo com a acusação  e com as confissões do próprio acusado no memorial que redigiu depois de sua prisão , as circunstância nas quais esse crime foi cometido, que ultraja ao mesmo tempo às leis, à natureza  e à civilização.
Os debates apenas confirmaram os fatos articulados pela acusação. Rivière tem 21 anos, sua figura de extremo abatimento, inspira interesse. Parece mergulhado em tristes pensamentos. Responde penosamente, sua voz fraca e por monossílabos. Quando mostrado a foice a qual ele cometeu o tríplice crime, ainda com tinta do sangue de sua mãe, sua irmã e seu irmão, ele revira os olhos e diz gemendo: “Eu tenho pressa em morrer”. E persiste nas confissões do memorial  já   tomada pela  instrução.
Ele declara que, matando sua mãe, sabia bem que fazia uma coisa condenada pela moral e pelas leis, mas que estava convencido de que devolvia a tranqüilidade a seu pai: que morria voluntariamente para assegurar a felicidade do pai. A irmã partilhava o ódio de sua mãe por seu pai, devendo ela ter a mesma sorte que a mãe. O irmãozinho primeiro por amar a mãe, e também por ser esse o único meio de jogar a cólera do pai contra ele, pois este o amava muito, e assim sua morte seria menos lamentada e sofrida pelo pai. As testemunhas tanto de defesa como a de acusação, trouxeram fatos diferentes, porém não provaram perturbação completa das faculdades mentais do acusado, supõem pelo menos um enfraquecimento notável de seu espírito. Um médico Sr. Bouchard que visitava o acusado freqüentemente na prisão de Vire, declarou que não tinha observado, nesse infeliz nem o caráter de loucura propriamente dita nem o da monomania do assassinato.
Essa declaração acendeu debates cheios de interesses de médicos que estavam como  testemunha de defesa.
A acusação foi sustentava pelo Senhor Loisel, que se dedicou a fazer ressurgir, seja dos debates, seja da instrução, e notadamente do manuscrito redigido por Rivière, a prova da capacidade intelectual do acusado.
A defesa foi apresentada pelo Senhor Berthauld, jovem advogado do foro de Caen, que com toda arte possível as circunstâncias resultantes de debates e de precedentes do acusado, tendendo a estabelecer a ausência de todo juízo e, por conseqüência, de culpabilidade de sua parte.
Após a deliberação de três horas, o júri retomando a audiência, resolveu afirmativamente. Declarando a Corte a condenação de Rivière à pena de morte (suplício dos Parricidas).
Com o resultado do julgamento,  vários foram as correspondências que chegavam  a Corte, uma vez que pairava a dúvida sobre o dircernimento e a razão na pessoa do acusado, os jurados assustados talvez pela enormidade da pena infligida a um homem que, segundo eles próprios, jamais gozara inteiramente de sua razão, se reuniram e elaboraram uma petição de comutação de pena.
Foi enviado um relatório do presidente do tribunal do júri à Direção dos casos criminosos, conforme relato o acusado condenado ao suplicio dos parricidas, assassinou em 3 de junho de 1835, voluntariamente e com premeditação, assassinando Victoire Brion, senhora Rivière, sua mãe, Victorie Rivière, sua irmã e Jules Rivière, seu irmão, ao meio dia em sua casa na Comuna de Aunaym de forma brutal com instrumento cortante.
Relatava que Rivière tivesse tentado fugir, mas que o próprio declarou depois que havia feito uma tentativa de evasão para não ficar com os outros detentos para os quais ele acreditava ser objeto de horror. Seu primeiro interrogatório o acusado quis sustentar que apenas estaria obedecendo à Deus, e para manter citava vários exemplos tirados da bíblia, querendo provar que Deus tinha autorizado ações semelhantes, mas ele não tardou a confessar que estava mentindo, reconhecendo que matou para livrar seu pai de uma mulher má que o  atormentava, sua irmã que tomava partido da mãe e seu irmão que amava as duas. Acrescentou que havia tentado passar por louco, mas a isto renunciava e submetia-se ao destino que lhe estava reservado.
Um memorial bem longo, minuncioso, foi redigido por Rivière num espaço de quinze dias dentro da prisão, de maneira detalhada a conduta condenável de sua mãe com relação ao seu pai, os sentimentos que esta maneira de agir despertavam nele, as reflexões que o levaram a conceber o plano de matar a mãe, assegurando assim o descanso de seu pai, os esforços que teve de fazer contra si mesmo para executá-lo, seu arrependimento, os remorsos que o dilaceraram, os pensamentos que não cessam de atacá-lo e o desejo de ver terminada uma vida que lhe era penosa.
Com confissões desta natureza só restava investigar se Rivière tinha o uso da razão no momento do ato, sendo dirigidos a instrução e os debates.
A fisionomia de Rivière nada tem de notável; anunciaria mais a doçura do que a tendência à crueldade; durante os debates ele ficou tão imóvel quanto seu corpo, não parecia agitado por nenhum sentimento, a não ser quando foi mostrada a foice com marca de sangue, onde virando a cabeça com horror, disse: “Tenho pressa em morrer”.
Suas respostas durante o julgamento sempre foram claras e precisas, e ouviu sua condenação com maior impassibilidade: Seu pai e seu advogado tiveram que insistir diversas vezes para que condenado assinasse o pedido de recurso.
Ficou constatado que Rivière não tinha tido nenhuma doença, nem recebera qualquer ferimento, que pudesse ocasionar uma perturbação em suas faculdades intelectuais. Parecia em sua infância, o espírito limitado, teve dificuldade de aprender a ler e a escrever, não tardando a descobrir aptidão para ciências exatas. Ele tinha uma memória prodigiosa, lia com extrema avidez, não esquecia nada do que tinha lido. Foi muito religioso e depois abandonou suas práticas de devoção, voltando mais tarde aos seus primeiro sentimentos, isto foi explicado em referência a sua conduta no memorial.
No campo social ele se isolava, mantinha um caráter sombrio e melancólico, era visto como um idiota, sem tendências viciosas.  Pregava passarinhos e rãs em tábuas com prego e os assistia morrer rindo, um riso de imbecil, que para ele representava a paixão de cristo, outras vezes dizia acreditar no diabo, também fadas. Trabalhou durante dois anos em seu sótão fazendo um instrumento para matar passarinhos, ao qual deu o nome de Calibine, ele foi enterrá-lo longe, em um campo seguido de crianças da cidade, na mesma época enterrou um Galo de estimação de seu irmão, simulando a cerimônia religiosa, tinha então 18 anos, anunciando com isto a excentricidade ou a extravagância, onde foram trazidos à tona nos debates.
Constatou-se também uma grande aversão pelas mulheres e todas as fêmeas de animais, lendo as Escrituras Sagradas, concebeu o maior horror pelo incesto e pela bestialidade, e temia que nele existisse, um fluído invisível que o colocava, mesmo contra a vontade, em contato com as mulheres ou fêmeas de animais, quando se encontrava em sua presença.
Dois parentes da senhora Rivière, num grau pouco afastado, morreram alienados, eles tinham a mesma aversão pelas mulheres. O irmão de Rivière de 13 ou 14 anos é considerado completamente idiota.
Pelos debates foram constatadas desavenças que existiam entre Rivière pai e sua mulher, sendo conhecidas por todos e todos culpavam-na; lamentava-se o pai por estar ligado a uma mulher tão má. O filho tendo uma afeição terna pelo pai, assistindo tormentos a qual este era vítima e as infelicidades que o afligiam constantemente, sua imaginação sombria e melancólica parecem tê-lo feito conceber o horrível plano de morte.
O memorial escrito por Rivière tinha uma clareza, ordem e precisão; todas as injustiças cometidas por sua mãe, são relembradas com os mais minunciosos detalhes. Vê-se que Rivière estava atormentado por um desejo imoderado de glória e de ilustração, falsos raciocínios apoiados em exemplos tirados da história levaram-no a pensar que faria uma ação meritória e se imortalizaria sacrificando sua vida para assegurar a felicidade do pai. Uma explicação diferente foi dada pela morte de seu irmão, para torna-se mais odioso aos olhos de seu pai para quem assim seu suplício não lhe ocasionasse nenhuma dor.
Médicos foram chamados a dar suas opiniões sobre o estado mental de Rivière, foram pensamentos diversos, debates foram intensos, porém reconhecendo as excentricidades de sua conduta e o desvario de seu juízo, acreditaram que tinha dircernimento suficiente para apreciar a moralidade de seu ato e por ele ser responsável, apesar de opinião diferente dois médicos que dirigem o asilo de loucos Bom Sauveur de Caen.
Nos debates fizeram nascer dúvidas sobre o estado mental do acusado entre médicos, júri e até o público que acompanhou com o mais intenso interesse, também dividiria opiniões, se fossem chamados a depor. Se a perturbação das faculdades intelectuais tem graus, não poderia atribuir seu crime a um estado de exaltação momentânea preparado pelas infelicidades de seu pai, estado que sem dúvida não é a loucura mas que entretanto não supõe o uso inteiro da razão.
O exemplo de execução ao qual Rivière foi condenado só pode ser salutar desde que não se levante qualquer dúvida sobre a completa culpabilidade do acusado, pois o contrário produziria apenas um efeito deplorável.
Se a clemência real entender sobre Rivière, seu estado mental, seria o único motivo que sua pena deveria ser comutada de maneira a privá-lo de sua liberdade para o resta da vida.
Os jornais da capital por vários dias fizeram comentários onde o publico manifestou-se com opiniões diversas, uns até se mobilizaram e fizeram por escrito, outros médicos entraram com suas opiniões, suas visões.
Em audiência solene, a Corte Real de Caen homologou as cartas de indulto e de comutação da pena concedida a Pierre Rivière. O condenado respondeu com calma às perguntas que lhe foram dirigidas pelo Senhor Primeiro-presidente, e mostrou a mesma impassibilidade que na ocasião dos debates.

  Transcrição resumida das sentenças de julgamento


Por sentença do tribunal do júri de Calvados, na data de 12 de novembro de 1836, o chamado Jean Pierre Rivière, de 21 anos, nascido em Courvaudon, habitante da aldeia de la Faucterie, profissão agricultor, declarado culpado de parricídio, foi condenado à pena de morte, mas por carta de indulto com data de 10 de fevereiro de 1836, Sua Majestade perdoou o referido Rivière da pena de morte, comutando-a para a de prisão perpétua. Ele começou a cumprir sua pena a 10 de fevereiro de 1836, dia da comutação.
Rivière foi levado á prisão central de Beaulieu , onde seu terreno pouco considerável, tendo oficinas, os dormitórios, as enfermarias, a capela, administração. O seu  tamanho facilita a vigilância, os aposentos são bem arejados, reina a maior limpeza, ficando isento de qualquer cheiro desagradável. O prédio é dividido em 12 pátios, sendo 8 para passeio dos prisioneiro e quatro para os diversos serviços. Assim que chegam ao presídio são inspecionados para saber se possuem doenças contagiosas, logo tomam banho, e os cabelos se compridos eles logo cortam, se vestem com o uniforme do estabelecimento. Eles sabem que devem ser limpos, decentes, submissos e laboriosos, e que nestas condições serão tratados com doçura, a mais sucinta instrução lhes basta, e a conduta dos outros prisioneiros lhes serve de exemplo. Os médicos fazem regularmente uma visita diária ou mais, se houver necessidade lá existe três classes de prisioneiros:
1º   Os homens profundamente depravados, que se brutalizaram no crime, que fazem dele um ofício e que não têm outro pensamento que o de voltar a cometê-lo;
2º  Aqueles que uma má educação fez adquirir desde a infância, sob os olhos de seus pais e talvez por influência deles, o hábito do roubo e da preguiça;
3º  São homens que por más companhias, por circunstâncias fortuitas, por necessidade, por infelicidade imprevistas, foram conduzidos ao crime.
Em 22 de outubro de 1840, Pierre Rivière se enforcou na prisão de Beaulieu,.  Há algum tempo notou-se nele sinais inequívocos de loucura. Rivière acreditava-se morto com isto não tomava nenhum cuidado com seu corpo, e dizia que se cortassem o seu pescoço não lhe causaria mal nenhum, já que morto estava, ameaçava matar a todos que não fizessem o que ele queria, tendo com isto obrigado a ser isolado, o que aproveitou para se suicidar.

O assassinato de Riviére tomou várias dimensões, não só pelo triplo assassinato, pois naquela época não foi muito comentado mais sim pelo fato de ter sido relatado em seu memorial com tantos detalhes mostrando ser um crime totalmente premeditado e com detalhes de frieza. O assassinato onde o assassino dizia-se um guerreiro.
O júri o julgaria por tamanha brutalidade, porém os relatos de seu dossiê mostravam um sofrimento vivido pelo acusado que acabou causando divergências em algumas opiniões, pois as circunstâncias atenuantes tinham um certo peso.
Ele passou a ser um verdadeiro exame médio, onde tratava-se de saber se sua ação e seu discurso correspondiam aos critérios de um quadro nasográfico.
Com todo seu relato Riviére conseguiu dividir opiniões onde testemunhas se contradiziam o público ficou com as opiniões divididas e os médicos totalmente divididos ao avaliá-lo.

            CONCLUSÃO

            O primeiro contato com o livro nos chocou bastante, não só pela violência  que Pierre Rivière usou para matar parte de sua família, mas por ser uma história real.
            O livro traz riqueza de detalhes e o que nos chamou mais atenção assim como a Michel Foucault foi o detalhamento que Pierre Rivière  faz em seu memorial, escrevendo nos mínimos detalhes sua vida em família desde a infância, dando ênfase a seu ódio por sua mãe pelo sofrimento que causara em seu pai.
            A importância da leitura foi nos proporcionar  conhecer a mente de um criminoso, as justificativas dadas por ele para cometer o crime, e poder questionar se uma pessoa que comete um crime dessa natureza tem consciência ou não das conseqüências que esse fato pode lhe trazer, seja na punição (forca) ou até mesmo carregar uma culpa pelo resto da vida.


MATERNIDADE: DESEJO DE SER MÃE OU IMPOSIÇÃO  DA SOCIEDADE?

Quando falamos em maternidade na maioria das vezes fazemos links com sentimentos de carinho, amor, ternura, dedicação e até mesmo, no sentido religioso, à santidade. Estar grávida gera nos parentes e amigos alegria e contentamento. O pai, mais do que ninguém, irradia uma felicidade visível aos olhos (alguns não), pois esse acontecimento traz a tona o quão é fértil e viril, o quanto é capaz de constituir sua própria família.
Para a sociedade em geral, a mulher nasceu para a maternidade - deseja intensamente ser mãe - e o instinto materno já vem com a mesma desde o nascimento. Instinto materno é um assunto que gera muitas controvérsias, pois se esse instinto em particular existisse, não teríamos mulheres que em momento algum em sua trajetória de vida desejaram a maternidade e em hipótese alguma se viram atuando como mães. Se o instinto materno existisse de fato, todas as mulheres sem exceção desejariam ardentemente serem mães.
Toda mulher tem o direito de escolher a maternidade ou não, toda mulher tem o direito de exteriorizar seu descontentamento, sua angústia por estar grávida e esses direitos devem ser respeitados por todos. A sociedade não permite que a mulher verbalize seus medos, sua ansiedade, a negação à maternidade, mesmo porque se a mesma vir a ter essa postura é “crucificada”, é vítima de questionamentos e comentários desagradáveis e muitas vezes ofensivos.
Inúmeras mulheres engravidam por pressão de familiares, amigos e principalmente do cônjuge. A cobrança aumenta à medida que os anos de casamento vão aumentando e as mesmas se vêem na obrigação de dar uma satisfação à sociedade, deixando de lado seus sentimentos e desejos. (Fato esse recolhido por depoimentos de mulheres grávidas em uma pesquisa). Então, ter filhos por quê? Para arraigar e dar expressão criativa a relação homem e mulher? Para realizar o desejo de transcendência? Para preencher o vazio existente em suas vidas? Para a procura de extensão de si próprio? Para sustentar vínculos muitas vezes já desfeitos? Para competição?
Há a idéia de que as mulheres nascem sabendo ser mães e que o amor materno é inato. O amor, entretanto, é como diversos outros sentimentos de afeto precisam de tempo e necessitam de inúmeros investimentos, deste modo, o amor materno é um sentimento que se constrói.
A gestação é um período de muitas mudanças, mudanças essas, tanto sociais, quanto físicas e psicológicas. No que tange a mudanças sociais podemos citar que de filha passa a ser mãe, onde acarreta a responsabilidade social na perpetuação da espécie e a responsabilidade legal pelo novo ser que colocará no mundo. Há as mudanças físicas, onde o corpo se transforma as marcas muitas vezes ficam. O corpo sofre mudanças, muitas vezes “penosas” para certas mulheres. Há o aumento de peso e do volume dos seios, já nos últimos meses surge a dificuldade de achar uma posição para dormir, dificuldade de andar, devido ao grande tamanho da barriga e o peso da mesma, os hormônios mexem por demais com sua sensibilidade, tornando-as muito mais sensíveis e suscetíveis ao choro. Há aquelas que passam também pelas náuseas, enjôos, vômitos e azia. E por último há as questões psicológicas, onde, há uma luta entre a filha, a mulher, a esposa, a profissional e a mãe, buscando, assim, a afirmação de sua feminilidade.  O bebê muitas vezes já existe na fantasia antes mesmo de engravidar, fantasias, essas que tem um significado singular para cada mulher, pois tem haver com a sua história de vida. O conflito no ciclo grávido-puerperal tem como característica a reativação dos conflitos da mulher com suas figuras parentais, especialmente com a mãe. Não podemos deixar de ver que, essa gestante é/foi filha e é a partir desse relacionamento mãe-filha vivenciado por ela que terá como alicerce para o curso psicológico dessa gravidez e de seu desempenho como mãe.
Por tudo isso e por questões pessoais é normal que mulheres não optem pela maternidade.  Quero ressaltar que nem toda gravidez faz a mulher vivenciar tudo isso, pois existem gestantes que vivenciam pouquíssimos sintomas acima citados e ressalto também, que há aquelas mulheres que se acham lindas enquanto gestantes e que ficam realmente lindas. Não quero dizer que a gestação é um período terrível, apenas desejo que a sociedade em geral entenda e respeite os direitos da mulher de não desejar a maternidade e, enquanto gestante respeite também seu direito de verbalizar seus descontentamentos. Essa questão é muito subjetiva e por ser tão subjetiva que devemos ter um olhar compreensivo e sem preconceitos para a mulher que decide não ser mãe, para aquela mulher que enquanto grávida, se encontra angustiada e depressiva por não ter desejado, tão pouco planejado a gravidez e/ou que engravidou para realizar seu cônjuge ou seus familiares. A mulher gestante precisa ser apoiada e ouvida quanto ao seu descontentamento e angústia por estar grávida. A mulher que não deseja a maternidade e que ao descobrir que será mãe, deve ter acesso a um espaço para ser ouvida de forma empática e compreensiva. Ser acolhida nesse momento tão vulnerável é fundamental para que a mesma possa verbalizar seus sentimentos. O espaço terapêutico é com certeza um dos espaços a qual essa mulher pode recorrer para ser ouvida sem preconceitos. Cada gestante é singular, como também cada ser humano o é, portanto, devemos, então, recebê-la como única diante de nós e, assim dirigir o nosso atendimento. A gestante necessita de um “chão seguro”, de apoio não tão somente de nós psicólogos, mas também de toda equipe de saúde que envolve a mesma. O ciclo gravídico-puerperal é um período de transição existencial, portanto, se faz indispensável uma assistência médica e também psicológica e por sermos um ser biopsicossocial devemos contemplar e pesquisar todos esses aspectos.

Por
Rita de Cássia Moreira Menezes Mussuri
Psicóloga


            O TRABALHO VOLUNTÁRIO

            Ser voluntária(o) é ter a capacidade de se doar com amor sem almejar nada em troca. Colocar sua profissão a disposição de uma instituição seja ela qual for, onde, os assistidos são pessoas humildes que mal tem condições financeiras para custear seu transporte e que em hipótese alguma pode nos proporcionar retorno financeiro, traz para quem faz esse trabalho um retorno muito maior do que qualquer quantia paga. Esse retorno se chama crescimento e, quando falo crescimento me refiro não só ao crescimento profissional, me refiro principalmente ao crescimento como pessoa, como ser humano que somos. O Voluntário muitas vezes não se dar conta que recebe muito mais do que dar.
            Eu, como psicóloga voluntária de uma instituição hospitalar posso afirmar sem medo de errar o quão  maravilhoso é realizar esse trabalho. A troca é uma constante, os ensinamentos são mútuos e o grande aprendizado é fruto de um sofrimento que busca o acolhimento, a empatia e a solidariedade que só  quem tem o dom de se doar de coração aberto pode vivenciar.
            Cada cliente ou paciente (como você queira chamar de acordo com a sua prática de trabalho) que chega, traz consigo uma bagagem de dúvidas, dificuldades de verbalizar o que sente e o que sentiu quando diagnosticado sua patologia, pois o desconhecido gera medo e o medo gera angústia e até mesmo desespero. Acolhê-los com amor, carinho e acima de tudo com respeito é o mínimo que possamos fazer enquanto profissionais psi que somos.
            Quando nos propomos a fazer um trabalho como esse, é primordial que estejamos conscientes que a empatia – colocar-se no lugar do outro – é a base para um trabalho respeitoso e humanizado.
            É pertinente afirmar não só para os psicólogos, mas para todas as pessoas que fazem algum tipo de trabalho voluntário, principalmente em uma instituição hospitalar que, embora, empáticos e humanizados (temos a obrigação de sê-lo) temos que estar preparados e estruturados psicologicamente para não absorvermos e internalizarmos o sofrimento, a angústia, a tristeza  a qual nos deparamos no cotidiano deste trabalho. Não podemos em hipótese alguma trazer conosco as vivências dolorosas, podemos sim, absorver todo o crescimento ali adquirido e introjetarmos   tudo de bom que esse trabalho nos oferece. Podemos sim, trazer conosco a alegria de ter tido a oportunidade de verbalizar algo que trouxe  tranqüilidade ao cliente/paciente num momento de dor e sofrimento. Podemos internalizar cada muito obrigado ouvido, cada sorriso tirado no momento em que parece existir apenas lugar para lágrimas. Podemos e devemos sim, nos sentir gratificados por tudo de bom  que esse trabalho nos proporciona, devemos nos sentir previlegiados por esse trabalho nos dar a oportunidade de sermos pessoas melhores e, ainda, nos dar a chance de  valorizar muito mais as pequenas coisas que a vida nos oferece.
            Quero dizer a você que está lendo este artigo, que ser voluntária é enriquecedor, que ser voluntária traz uma realização pessoal/profissional tão intensa que dinheiro nenhum pode pagar.
            Seja um voluntário você também e terá a oportunidade de vivenciar  tudo que estou falando. Seja um voluntário você também, não esquecendo do comprometimento, responsabilidade, empatia, acolhimento, carinho, amor, dedicação e ética, ética esta muitas vezes esquecida e colocada em segundo plano. Sejamos éticos em tudo que fizermos.

Por
Rita de Cássia Moreira Menezes Mussuri
Psicóloga Voluntária da Santa Casa de Misericórdia
33ª Enfermaria - Maternidade

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